E Se Deus não dá, como é que vai ficar, ô nega?

Meio Bunda
Meio Burra
Meio qualquer
Qualquer meio
Pretensiosa por inteiro
Idade: 24 aninhos, algum buraco negro entre a pirralha e a balzaca
ICQ: 64232037
From: Recife / Brasil

[Lê, rapá]
.:Agulha:.
.:Alquimias:.
.:Apartamento 902:.
.:Autista na Copa:.
.:Beije-me, idiota:.
.:Blogaix:.
.:Bonina:.
.:Camiles:.
.:Chico movies:.
.:Condição: humana:.
.:De Sampa:.
.:De Veneta:.
.:Distonia:.
.:Dois acordes e 1/2:.
.:Drama Girl:.
.:Gotcha:.
.:Happy Pills:.
.:Impetuosa:.
.:Instantemente:.
.:Interdependência:.
.:Longe Daqui:.
.:Lost Post:.
.:Mercúrio e Luxúria:.
.:Momento Interior:.
.:Olhar Cinéfilo:.
.:Ombuds PE:.
.:Palhaçadas:.
.:Popup:.
.:Psicossomático:.
.:Prosperosbook:.
.:Recife Pop:.
.:Rotativa:.
.:Urubuservando:.
.:Vodca Barata:.


[Oia!]
Calcinha Club
Laerte
No Mínimo
Snoopy


[Arquivo nada confindencial]
Meu passado

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Quarta-feira, Dezembro 20, 2006

The last one standing - Lady Tron

Carrego uma pulseirinha de nosso senhor do Bonfim, meio incrédula pus ao começo do ano fazendo os três desejos ao Aladim brasileiro. Mal sabia que talvez estivesse nesse gesto o prenúncio do meu interesse religioso de aliar minha fé às raízes afras do sagrado, que me abriu o interesse pelo candomblé. Até então impensado, acho que ano que vem quero apronfundar meus conhecimentos e também meu envolvimento.

Fina, suja e feia, a fitinha persiste em meu pulso, esperando a última realização. Carrego em meu corpo tudo que tinha de expectativas para 2006. Um elo me liga ao passado e ao que ainda quero, assim como o ano que puxa o outro sem romper, um prolongamento apenas. E o que me falta Bonfim? Isso ainda fica entre nós. Mas o que rolou, nada que seja ainda seja ainda segredo.

Vida nova ressurgida de fênix na sala de cirurgia, me livrei das dores físicas e emocionais, conseguindo extirpar o que somatizava. Expelir. Mundo, cidade, sotaque, amigos, casa, emprego, filosofia nova. Cabelo também, importante. Então virtualmente há também um querer de novidade, a precisância de um espaço que resuma essa nova negha, cosmopolita, metida à modernosa, mas no fundo uma mesc cheia de bairrismo.

Além disso, a chegada dos 25 anos, foi a última pá de cal na adolescência, e cansei dessa coisa umbigo do mundo de ter como casa um espaço tão egocêntrico chamado meio eu. Mesmo que seja meu e que fale de mim, o mundo além da minha cicatriz de hérnia me interessa e importa. Sou só mais alguma perdida no meio das coisas, a relação que estabeleço é que percebo como objeto. Largo o microscópio pelo telescópio, o divã pela antropologia. Cresce negha, cresce.

Então, a partir de 2007, as voltas da vida da negha estarão estampadas agora no arrudeia.blogspot.com. Deleitem-se então com essa despedida bem-vinda nesse post-elo que deixo em comum de um blog que passa pro outro como Reveillon que se anuncia apenas com uma nova aurora.

Recauchutagem 2006:

Filme: Volver. Almodóvar é Deus. De surpresa, curti Meu irmão quer se matar.
Filmes perdidos: Toda a Mostra SP 2006. Saco nenhum pra fila.
Bogus / propaganda enganosa: Árido Movie
Banda doce-descoberta: Art Brut, Devendra Banhart
Discos: New Order duplo e Morissey, ai ai ai meus anos 80.
Shows: orquestra imperial (pelas companhias) e claroooooooooo Franz Ferdinand!!!!!!!!! Uma catarse.
Shows perdidos corte-os-pulsos: tim festival (beastie boys, devendra, yeah yeah yeahs, daft punk), chico buarque e maria bethânia
Teatro/ Dança: Sizwe Banzi Está Morto, de Peter Brooke / Pina Bausch
Viagens: Rio, Rio, Rio!
Bafão: ela foi uma lady esse ano. Troféu ternurinha para a bêbada mais comportada do ano. Hhahaha, mentira!!!!!!! Primeiras grandes canas em São Paulo, ser resgatada chamando raul do banheiro masculino e chegar no fim de carreira, fim da linha do ônibus, trêbada, no terminal perdida.
Reencontros: soulmate, jorge tadeu e a pernambucalhada
Presentinho: São tantas boas aquisições de lindos amigos aqui em sampa, listinha básica - celi, camiles, mila, paulie, julio
Vícios: coisitas ilícitas, dr. house
Best Kiss: actor
Best fuck: banheirão com jorge tadeu
Certain amour: soulmate e actor
Worst desapointment: bissinha afetadinha que se fazia de amiguinha
Melhores momentos: casinha e roomates lindas, new job, soulmate
Piores momentos: quase morrer na cirurgia e acordar entubada na uti, ser expulsa de casa pela bissinha víbora que me deve 500 reais, o pé na bunda do actor
Reis do picadeiro e da Série Por que eu fiquei com Esse Menino?: sabonete, carinha no mercearia que levou minha bolsa, rasta no Milo, mon ami francês
Coisa que me orgulho: homem invisível
Coisa que me envergonho: acreditar em heróis de faroeste
Pra apertar o pause (parar o tempo): soulmate
Pra apertar o RW (retroagir e fazer de novo): canas no recife, banheirão, náutico na primeira
Pra apertar o FF (passar por cima sem rever): bissinha, actor
Pensamento do ano: Ou comparece, ou desaparece
Expectativas para 2007: voltar a estudar e fazer uma viagem internacional, além de encontros e reencontros


Terça-feira, Dezembro 19, 2006

Santa Maria de la feira - Devendra Banhart

Investigadora do desapego. Passo horas derivando sobre as especificidades da desimportância. Retorço os meus baixos de índices de baixa-estima repensando os diversos retalhos de rejeições que costuram minha colcha de retalhos de traumas afetivos. Ao mesmo tempo tento identificar as sutilezas que me ligam fortemente a alguéns e me desconectam completamente de outrem.

Ainda tenho dificuldade de compreender como é possível, depois de compartir histórias, risadas, gostos e confissões, simplesmente abstrair de tal maneira como se as pessoas jamais tivessem existido. É óbvio que tesão passa, às vezes de súbito, pero como é possível não sentir falta de uma risada, daquela opinião sobre aquele filme que se tem absoluta certeza que o outro adoraria?

E não é como reza a lenda que eu já peguei todos os meus amigos. É que todos os meus ex que em algum momento foram legais e importantes eu mantenho em minha vida. Para mim, se há respeito, carinho não se dissipa. Por outro lado, há pessoas que até passam pelos meus lençóis podem não me tocar jamais, e me despeço delas como quem esquece brincos displicentemente em um balcão de pia. E eu não to falando do caso de one night stand somente, mas de gente que até situou certa constância mas que mesmo assim jamais conhecemos além da bíblia.

É o mistério da intimidade. É uma coisa recíproca? É possível estar intimamente ligado a alguém que não se sente cômodo ao seu lado? É possível fingir um bem estar de bem querer como um orgasmo pornô de locadora? E sendo isso impraticável, como simplesmente para alguns se torna plausível desligar como um clique e eliminar alguém da lista de convivência para todo sempre com direito a silêncio constrangedor em caso de encontro casual?

Eu sinto uma coisa mágica quando alguém se torna íntimo, e as coisas então passam a ter sentido, significado e substância. É como um clique, e naquele congelamento que um segundo parece ser suficiente para rever a vida inteira. Nesse espaço eterno de tempo que se abre sinto uma expansão, uma fluidez de minha essência que se vai ao outro como osmose que levará consigo um pedaço que jamais retornará a ser meu, ou de mais ninguém. Como o tabu do hímen que não se reconstitui. A questão não é a pele, mas o que representa, tudo que se deixa de ser até aquele exato momento. A negação do eu.

Consigo recordar-me do exato instante e circunstância que me percebi apaixonada, nas poucas vezes que isso aconteceu. Lembro o sorriso nervoso de lado do ex-fdp no quarto dia de namoro, constrangido por ter me levado a um filme demasiado erótico. Na maneira que ele hesitou em me tocar com receio de ser incompreendido em seu arroubo de hormônios inspirado pelas provocações visuais de Almodóvar, eu senti que éramos cúmplices. Ao menos dessa vez os céus foram a favor, e a troca foi justa por muitos anos.

À segunda vez, me apaixonei pelo inusitado, pelo impossível. Era uma etapa importante do resgate de todas as outras coisas importantes que eu tinha dado ao ex fdp (falo de personalidade e sonhos, o hímen nunca me fez falta). Quebrar os meus próprios tabus, romper meus limites, estava ali representado naquele homem que simbolizava tudo que eu pensava jamais querer: uma história virtual, um cara bem mais velho, um estrangeiro, alguém que tivesse mais aprendizado de vida que de cátedra.

Quando o fui visitar numa segunda ou terceira manhã de romance, e me esperando ao portão disse aquele te amo matinal, espontâneo como quando pedia café, senti como um nascimento, me reconstituía pra ele e para o mundo como uma outra qualquer de minha que eu não conhecia. E amei diferente a partir daquele dia.

A terceira vez é a que mais me assusta. Ainda não havia enlaces, promessas, possibilidades e contexto. Eu o via pela primeira vez, e como anjo, não como homem. Segurou minha mão como se fossemos casal de longa data, que os anos tivesse feito o gesto hábito e agia com tamanha naturalidade, que nem seguiu o protocolo de beijar naquele instante, ficamos assim, por horas, como se já soubéssemos que pertencíamos.

Ele se virou e foi ao orelhão, eu o olhava e sabia ali que o amaria. Tanto, que por amor inconsciente, lhe disse não, um dos raros nãos com vontade de sim que já dei na vida. Sabia que não suportaria despedir-me e acovardei-me nas hipocrisias sociais que me fizeram uma mulher aparentemente recatada naquela noite. Daquela até esta, o amo convictamente.

Na quarta vez fui pega em armadilha pela luxúria. Vivia os desejos hedonisticamente e cegamente pensei querer-lo somente como um sonho de consumo. A caça pela caça. Abatida fui eu. Rompi o meu próprio contrato de indiferença naquela manhã depois de uma noite voluptuosa. Pensei em estapeá-lo quando ele com doçura imensa me beijou a pálpebra - meu calcanhar de Aquiles - e se enroscou em mim para ressonar. ¿Filho da puta, não faz isso que assim te amo, e não é isso que você quer¿. Não-dito e feito. Desejei que todas as manhãs fossem como aquela e ele, claro, nunca quis, e eu me fudi. Mas rápido e superficial que nas anteriores.

E por que entre tantos, estes foram os acontecidos? Por que não o melhor sexo ever com Jorge Tadeu me levou a viajar? Por que o tempo de andar de calcinha, comida na cama e livro na rede com o Woody Allen wanna be e rir juntos com cinema e amigos me fizeram pensar que era ele? Qual é o segredo da chave da ignição? Mistério da vida, inexplicável e indissolúvel.

O acaso é a cereja do bolo. Mas e quando não é acaso? O que leva alguém a ligar todos os dias, abrir a porta da casa que não recebe visita, querer introduzir seu universo secreto e suas histórias impublicáveis, bancar o gourmet, encher de mimos, compartir diversas coisas e do nada ligar o foda-se como se nem me conhecesse? Para quê tanto envolvimento para ir-se como qualquer um que come e vai embora? De mais valeria que me fosse um estranho, que ainda me são mais confiáveis e úteis, já profetizaria a personagem de Um Bonde Chamado Desejo.


Segunda-feira, Dezembro 04, 2006

So Here We Are - Bloc Party

Eu acredito em pouquíssimas verdades absolutas ou mesmo controversas. Vida após a morte e a Lei de Murphy são algumas delas. Nunca vi coisa mais infalível. Sempre quando a gente acha que aquilo não pode acontecer é que acontece. Blitz só pára quando a carteira está inválida.

Passei semanas colaborando para a minha escoliose precoce (bolsa de mulher, sabe como é) carregando uma sombrinha nesse deprimente anúncio de verão paulista, que aqui nada mais é que o inverno recifense, chuva, chuva e um abafado incômodo. Hoje, depois de até me aventurar a descer a Serra e ir à praia no domingo ¿ sou tão bairrista que o nome da escolhida se chama Pernambuco ¿ acreditei que dia limpo é possível. Equívoco, mais uma dia de enchentes e a cidade parada. Não faço a mínima idéia de como em meio ao caos sairei daqui do trampo.

Mais uma prova da filosofia do mestre Murphy me ocorreram no espectro flerte. Ontem, com minha ilusão de bronze litoral, me arrumei toda pra pegar uma balada tropical, binita estava binita fiquei, por que todo mundo morgou e fui pra casa sem ver um pé de gente. Enfim, gastei minha beleza pra nada. O perfume também, o banho superproduzido ainda estava na validade quando despertei.

O mau humor de mais uma noite de zero a zero me levou a ligar o foda-se e ir com os cabelos de são joão despertados e as remelas despercebidas trabalhar com o banho de ontem. Nunca faço isso, não funciono antes de um banho de meia hora pela manhã. Mas hoje eu estava desgostosa até pra isso e queria levar um pouco da cama comigo. Combinando com a proposta, a roupa mais horrenda possível, claro, foi a escolhida. Passar no ferro pra quê? Vou passar o dia sentada mesmo, amassa ao longo do dia, não faz diferença... pensava eu.

Lá vou eu no melhor estilo mulambo-eu-mulambo-tu. Claro, que nesses dias de rastro de corno, assim que eu pisei na rua vi o ônibus me dar chau. Mais meia hora de espera, delícia! Ao menos consigo um lugar pra sentar no buson. Engarrafamento clássico e me destraio com o novo briquedinho, Mp3 player com Devendra na trilha.

Até que entra no ômbdus um cara lindo de morrer, sexy, barba por fazer, cabelo crescendo, piercing na orelha, olhos azuis, versão descolada e do bem de henri castelli. Colírios matinais são comuns no meu trajeto até o trabalho, mas esse me enlevou de uma maneira que a viagem foi supercurta. Ele então se levanta e eu passo mal. Foi-se. Que pena, penso então.

Chega meu ponto e levanto-me eu. Lá está ele, ainda. Coincidências da vida, temos o mesmo destino. Sigo-o sem querer, afinal é o mesmo caminho. Ops! Ele entra no mesmo prédio, tira um crachá. Como assim a belezura trabalha no mesmo lugar que eu e nunca o vi antes?

Compartimos mais uma viagem juntos, o elevador. Encontro uma colega e lhe falo algo, ele sorrir! Morri. A porta se abre, meu andar, mais um dia trabalho. E chego a conclusão que as pessoas que se arrumam para o ir ao trabalho não são as mais frescas, mas simplesmente as prevenidas. Por que ele tinha que me ver justo hoje? Agora é começar o movimento Tim Lopes de jornalismo investigativo e descobrir onde a criatura se esconde tão bem e tentar desfazer a péssima impressão do meu layout.


Quarta-feira, Novembro 29, 2006

Dois barcos - Los Hermanos

Todo fim de relação é uma morte, toda separação um luto. Meus impulsos homicidas sublimo em assassinatos simbólicos. Matar o homem e quem sabe nasça o amigo. Matar o homem é transformá-lo num desconhecido. Então tenho os rituais de morte, as receitas, que dependendo da gravidade do caso, ou da importância do presunto, devem ser todas acatadas em caráter emergencial.

Guia como eliminar uma dor de amor e manter a sanidade (das precauções mais leves para ferimentos superficiais como arranhões até casos de extrema gravidade):

1. Eliminar o telefone do dito cujo da agenda do celular ¿ isso evita ataques compulsivos de ligar com desculpas esfarrapadas ou mesmo o pior que pode acontecer: ligar bêbada dizendo que está com saudades.

2. Apagar o orkut do cidadão do seu círculo e evitar o login na rede por alguns dias, para não bancar a Glen Close e ficar investigando a vida do cidadão e descobrindo que a fila andou, que as paquerinhas andam enviando scraps carinhosos que fodem a alma da gente.

3. Excluir o bandido do MSN, não ver quando a criatura se conecta (ou não aparece) evita a nóia de ficar ansiosa toda vez que o nome dele pulula na tela, ou ainda um ataque histérico quando ele não diz oi. Não bloquear deixa em aberto dele falar quando queira, deixa aberto o canal, em alguns casos graves, o mais acertado é bloquear ao excluir.

4. Esperando que um dia vire passado afetivo, e pra não correr o risco de rasgar tudo e se arrepender de ter destroçado os registros de uma parte boa da vida, guardar e lacrar resquícios da criatura em seu ambiente: fotos, cartas, cartões, emails, presentes, tudo que leve a uma crise de choro de saudade e melancolia. Entocar em algum lugar de difícil acesso até a recuperação total, as mais descontroladas podem deixar penhorado na casa de uma amiga.

5. Sair com outras pessoas, fazer uma faxina na prateleira, reaver stand bys e todos os disk sexo da agenda premiada. É importante se convencer que há pessoas interessantes no mundo e ele não é tudo. Mesmo que as outras opções não sejam pra tanto, é importante se enganar que você tá podendo e pegando geral pra não surtar no complexo da rejeição: se ele não quer, tem quem queira.

6. Quando a saudade bater, imediatamente lembrar de todos os defeitos do sapo, nenhum bruto é perfeito, e os príncipes são fakes como em Shrek. Pensar em tudo que você não suportava na criatura e se sentir aliviada por não ter mais que aturar essas coisas.

7. Drástico em desespero profundo: mudar de hábitos cujas referências lembram o ex-querido. Os lugares que se costumava ir juntos, as companhias em comum que vão passar a ficha do que o cara anda fazendo. Em casos de dor dilacerante, dar um tempo até nos gostos em comum, os discos, livros, filmes que remetam a lembranças de momento com ele.

De tanto fingir que não lembra e não se importa, um dia acaba-se esquecendo. Uma mentira repetida diversas vezes acaba galgando credibilidade e se torna real. A indiferença, mesmo a fingida, ainda é a arma mais letal. Ele estará tão morto nesse dia, que nenhuma das medidas serão mais necessárias. Se for alguém realmente bacana, capaz de sobrevir a tanto tempo unplugged, terá se tornado um grande amigo. Ou não.


Quinta-feira, Novembro 09, 2006

Exijo respeito - bidê ou balde



Quinta-feira, Outubro 19, 2006

Turn On The Bright Lights

Não é mágica, nem presunção, mas o fato é que as trombadas (que não foram poucas) pelas quais já passei, me levaram a um patamar, que na média geral, sou um pouco (só) amadurecida demais para a minha idade. Talvez por isso, desde que me entendo por gente, sou a caçula de todas as minhas turmas.

Mas, porém, contudo, todavia, eu não tenho 40 anos, e apesar dos meus 25 começarem a pesar rumo ao abismo balzaquiano, eu não estou nem perto disso. E por mais que a harmonia entre o ser humano seja linda. Vinte anos fazem diferença. E eu andava cansada de ficar encabulada por beber cerveja em qualquer mesa que esteja, de gostar de farra, de sexo, de dançar, de falar merda, e ainda ter que me preocupar com o futuro 24 horas por dia.

Eu não sou assim. Eu não sei o que quero está fazendo daqui a 10 anos, eu não penso no tipo de vida que quero dar aos meus filhos que nem sequer penso em ter. Eu não quero mais ficar me dilacerando com as merdas que fiz até agora, e não preciso entrar no pânico já que ainda estou no lucro no direito de fazer mais outras tantas que a idade ainda permite. Enfim, eu não quero ser uma mulher séria agora.

Se eu não puder ser fútil e inconseqüente agora, vou ser quando? Eu descobri que é tão mais leve se relacionar com alguém cuja preocupação é o que fazer no fim de semana. Como eu. O futuro a ele próprio pertence, e não posso inventar um passado que não tenho só para parecer mais vivida.

Ademais, nunca tive fetiche de professor, e enche o saco gente que adora ser o exemplo: ¿isso é por que vc não viveu certas coisas...¿ e quem disse que obrigatoriamente vou ter que viver, ou que se vier a acontecer, vou aprender o mesmo tipo de coisa? E chega também de busca de autoconhecimento, pra mim ta ok o que sei de mim até agora. Pessoa agradabilíssima até então. Até meu blog tava cabeçudo demais. Um pouco de foda-se não faz mal a ninguém.

Agora vá pra cadeia,
Hoje o mundo é moderno
Pois eu não te quero mais,
Vá casar com o santanás
Lá na porta do inferno


Minha relação com sampaulo, meu

Aí eu vou pro Rio de Janeiro, viajo de carro com minha família recifense adotada aqui em sampa, encontro minhas amigas do peito, vejo o mar e sol e sinto gosto de manteiga de garrafa quase esquecido. Voltar pra casa, pra chuva, pro frio, pra poluição, pro trabalho, pras lembranças do imbecil que não me quer mas faz tipo, pra solidão, é, sem dúvida, uma viagem triste.

Normal então começar a se pergunta por que cargas d¿água eu queria tanto vir pra essa cidade de corno, com esse clima e ritmo que ninguém merece. A vida nem demora muito pra me dar a resposta: os velhos amigos que tenho aqui, a casinha, os novos amigos, roomates, a paulista, os teatros, a mostra de cinema, as perspectivas...

E nada melhor que pupurri de Reiginaldo Rossi no show da Banda Vexame, almoços aprazíveis. Esqueço completamente por que vivo me questionando porque raios sou jornalista quando, como hoje, faço uma entrevista fuderosa, com alguém cujo admiro o trabalho há anos, e essa fonte gosta tanto dos meus questionamentos e interferências que me falou: ¿por favor, apareça, e se você for ver, me procure, que gostaria muito de conhecer você e saber com quem tive essa conversa tão agradável¿. Assim começa a fazer algum sentido onde estou e por que vim parar aqui. É reconfortante.

Mais um motivo para amar a paulicéia. Já estou inscrita nesse curso ¿ detalhe: é de grátis!!!

O CINEMA: EMPREENDIMENTO, LINGUAGEM E HISTÓRIA

1ª Aula ¿ O Cinema como Empreendimento
Introdução: Um Novo Olhar sobre o Cinema.
Fases do Empreendimento:
Argumento
Roteiro
Projeto
Pré-Produção
Produção
Pós-Produção
Distribuição

2ª Aula ¿ A Linguagem do Cinema
Recursos Técnicos da Linguagem
A Classificação Técnica do Filme

3ª Aula ¿ O Expressionismo Alemão
A Situação da Alemanha no Pós-Guerra
A Formação da UFA
As Origens do Expressionismo
O Cinema Expressionista: Dr. Caligari; Nosferatu; Metropolis.

4ª Aula ¿ A Escola Soviética e a Vanguarda Francesa
Origens do cinema soviético
Eisenstein: O Encouraçado Potenkim; Outubro.
Origens da avant-garde
O Surrealismo: Um Cão Andaluz e A Idade de Ouro

5ª Aula ¿ A Época de Ouro do Cinema Americano
David Griffith ¿ Intolerância
Charles Chaplin ¿ Luzes da Cidade
Frank Capra ¿ Do Mundo Nada Se Leva
John Ford ¿ As Vinhas da Ira

6ª Aula ¿ O Filme Noir Americano
Origens e Influências do Film Noir
Características Temáticas
Características Estéticas
Filmes: A Relíquia Macabra; Laura; O Grande Golpe.

7ª Aula ¿ O Neo-Realismo Italiano
Origens e Influências do Neo-Realismo
Características Temáticas
Características Estéticas
Filmes: Roma Cidade Aberta; A Terra Treme; Ladrões de Bicicleta.

8ª Aula ¿ A Nouvelle Vague
Origens e Influências da Nouvelle Vague
Características Temáticas
Características Estéticas
Filmes: Acossado; Jules e Jim.


Quinta-feira, Outubro 05, 2006

Time is running out - Muse

Porque eu queria receber cartas, mesmo tristes, como as que eu escrevo:



"Essa imagem é para mim tão impactante e intrigante que esse foi o primeiro postal escolhido para ilustrar minha placa ¿ primeira expressão (ou impressão) de meu lugar conquistada aqui em São Paulo. Depois do condicionamento de observá-la todos os dias (ou talvez inconscientemente dantes, já incutido o real motivo da escolha), passei a correlacionar a fotografia a um retrato simbólico de nós dois.

A priori, surgem os paralelos óbvios, o negro e o branco, como nossa tez que externa a incontestável diferença. Interligo à tatuagem que carrego: a gata negra arredia e promíscua, notívaga nata em buscas de farras, de sexualidade vibrante; e o gato alvo culto e quieto, artisticamente sensível, responsável, herói nas horas vagas, e pai.

Dados os personagens, fico então devaneando com os olhos no postal, sobre a possível relação entre esses objetos e no significado de sua postura. Ovos de Colombo inacreditavelmente de pé graças ao ponto de apoio que lhes dá equilíbrio. É sem dúvida uma boa metáfora, em sua brilhante simplicidade, para contextualizar o preceito da coexistência, idealizado pela tal exposição.

Então penso nos embriões que estão recolhidos em cada casca, cada casulo, e vem a remissão à individualidade. Coexistir me parece isso, permitir externamente o contato com o outro sem violar a essência; manter o que lhe é próprio e único; cada um na sua, cada universo particular em sua metamorfose interior até o verdadeiro nascimento, unido ao outro exclusivamente por um objeto comum: manter-se de pé. Nesse instante, como propõe a ONG pela Coexistência entre o mundo ocidental e oriental (islâmico), as diferenças (cores) ficam em segundo plano.

Era mais ou menos assim que eu nos via nessa imagem, como duas pessoas bastante diferentes, com trajetórias distintas (como branco e preto), imersas e recônditas em suas próprias dores e passando por momentos de transformação interna. Mesmo assim, pela ironia dos caminhos, esses tais seres (nós/ovos) acabaram unidos para coexistir, aproveitar a presença do outro, enquanto fosse sustentável, para se comprazer da convivência, trocar aprendizados, (re)erguer-se em concomitância sem extrapolar o limite do outro ¿ como em ovos mexidos.

Parecia lógico, e até mesmo possível. O proposto das individualidades aparentava ser o mais saudável dessa nossa relação. Entretanto, observando com olhos mais atentos, o ovo branco tem a casca rompida...

Não que não haja a possibilidade do ovo preto esconder alguma problemática em seu misterioso interior, mas a fissura do ovo branco está clara e explícita, irrevogável. Matutando sobre as possíveis explicações, peneirei duas hipóteses: ou está esse ovo realmente mais frágil e esse buraco é uma falha, uma ferida; ou então esse ponto de quebra nada mais é que o rompimento da natureza, o preparo de parto da tal ave que está ali (quase) pronta para conquistar o mundo.

De qualquer maneira, o ovo branco vive uma questão intrínseca que independe da (co)existência do ovo negro. Na rachadura em si está expressa a vulnerabilidade dessa comunhão, que já vive em contagem regressiva. É inquestionável que o ovo branco, mais cedo ou mais tarde, romper-se-á, seja pelo derramamento da frágil essência interna ou para que a suposta ave esvaia-se. Em qualquer das possibilidades, o branco não estará ali por muito tempo como base de apoio para o negro.

Então, no fundo, a questão da coexistência talvez seja um ideal tão utópico para nós dois (se é esse o nosso retrato) como é em si a convivência pacífica entre judaico-cristãos e mulçumanos. Penso que, por ter elegido o tal post-card, no fundo eu já tinha percepção de toda a situação, até da previsibilidade do desfecho. Você e sua rachadura são uma questão magistral e (qualquer) outro ovo tem um papel secundário.

E está claro que a tal coexistência, ou apoio mútuo, pesa mais e é bem mais doloroso para o lado machucado. Obviamente o ovo negro vai se deitar com a ausência do apoio, mas, como na foto, ele vai continuar intacto, apesar de ter que se adaptar à nova posição."


Domingo, Outubro 01, 2006

Sem açúcar - Chico Buarque

Intenso é a palavra mais eficaz para resumir o dia de ontem. Ápice de uma seqüência de dias de imersão na convivência com a dor, o compromisso voluntário de atravessar os momentos frustrantes sem sublimar em surtos eufóricos, passo por experiências ainda mais radicais.

Em recente entrega espiritual, realizo que meu papel nesta vida é reconstruir com equilíbrio minha autoestima dilacerada, costurar as feridas deixadas pelas humilhações (muitas das quais eu mesma busquei) e em contrapartida não abrir da minha essência sensível e da minha capacidade de entrega. Preciso encontrar o caminho do meio entre impor limites e não me fechar completamente. Eliminar os excessos, entre a dicotomia da dependência e da arrogância, ser ao mesmo tempo um ser livre, mas conectado aos outros.

E ninguém disse que era fácil, só necessário. O sentido do deixa levar é tão abstrato quanto simples parece. Que é verdadeiramente deixa levar? Esperar em parcimônia, permitir passivamente que a vida decida por si e ser um conformado títere do destino? Ou guiar com astúcias os caminhos e colher os resultados, na tão esperada hora certa? E que hora seria? A sabedoria do fluir está no ponto G entre o lábio da paciência e o da paixão.

Não existe agonia maior que estar e não ser, que sentir e não ter, que cheirar e não tocar. É infinitivamente mais doloroso que ele olhe no fundo dos meus olhos e nada de fulgurante vislumbre que o incômodo da sua ausência poderia oferecer. É bem pior que esteja sempre ao lado, que me beije, e me seja gentil, mas não me deseje, e não estejamos flutuando, que chorar por não ter notícias suas.

Vivi minutos insuportáveis ao seu lado, num programa que deveria ser aprazível, foi quase como uma tortura. Que mais enlouquecedor poderia ser que escutar juntos, separados pela barreira invisível por ele estipulada, linda canções de amor e de dor, sem poder dizer-lhe que eu o quero bem como a quase ninguém cedi querer, e que lhe cuidaria se ele me permitisse. E não era simplesmente falta de coragem (por medo de perdê-lo) em falar do meu querer, mas pela certeza da insuficiência desse querer em si. Ele não tem como recebê-lo e sei exatamente do que se trata.

Quantas vezes fui eu, perdida e nocauteada, desconfiada como um bicho do mato, que repeli pessoas lindas que passaram pela minha vida, por mais que suas companhias me fossem preciosas, eu não conseguia ceder a sentimentos afetivos? Se ele pudesse, ele me quereria, mas ele não tem direito a querer. E tal hora certa não era essa. Eu sabia.

E amanhã, não serei eu o motivo de seu sorriso matinal, serei no máximo uma lembrança doce de um momento de transição, uma pedra amarela do caminho de OZ até quem chegue na hora devida. E me tira as forças e encharca os olhos (de prantos escondidos nas cobertas de noites de insônia) pensar que esse poço não foi cavado por mim, ao menos não sozinha. Foi um investimento dele cativar-me, como um profissional, ao ponto que eu abrisse tudo que recolhi por anos de fortaleza. "Eu quis esperar que você confiasse em mim, que a forma que você me olhava se transformasse", pra quê? Se o que sinto agora o constrange? Ninguém pode fingir que não leu o Pequeno Príncipe dessa maneira.

E num histórico show em homenagem a Itamar Assumpção, com Ná Ozetti, Naná Vasconcelos e Arrico Barnabé, eu sufocava de dor ao pensar cantar pra ele versos como:

Sendo fim também és
Tu és meio e começo
Sim e não, norte e sul
Direito avesso
Você me seduziu desde o inicio
Sendo assim porém fica mais difícil

Enquanto tudo que senti que ele queria dizer-me apesar de sua sutileza, com uma cruel compaixão, seria:

Meu amor por você chegou ao fim
É tudo que tenho a dizer
Mas também não precisa sair assim
Espere o dia amanhecer

Amanheceu e eu fui, em silêncio, com o resquício de dignidade que sobrou e os caquinhos recolhidos na insignificância para a qual fui fisgada. E esperando que mesmo assim, eu me mantenha lúdica (ou lúcida?), capaz de sonhar um dia qualquer, que o amor é algo a que tenho direito.


Quarta-feira, Setembro 27, 2006

Last night I dreamt that somebody loved me - The Smiths

À minha maneira particular, ante minha crítica existencialista e psicológica, os filmes me tocam através da correlação com minha vivência, meu sentindo de humano. Claro que faz parte analisar cinematograficamente, como um cinéfilo que queria ser crítico quando crescer, mas nem sempre o mérito artístico é tão relevante quanto o mérito emocional. E uma coisa não exclui outra.

Tudo isso para dizer que eu vi um filme lindo, sarcástico e de humor negro por fora e sensível e frágil a fundo, como eu resumiria minha própria pessoa. Depois de uma semana mergulhada em minhas nóias, depois de pressentir o fim e começar a viver a fossa e o fosso de estar só, ele me liga pra ir ao cinema. Clima de romance zero, como nos últimos tempos recorrente, e meu espírito pequeno se alegra com o fato dele me ligar.

Pausa: eu me acostumei tanto ao mau trato de canalhas, que em minha humilhada estima acho reconfortante que o cara não me ame, mas me chame para ir ao cinema mesmo assim, como se ao sair de "coleguinha" eu ainda estivesse no lucro, porque ao menos ele não desapareceu...

De volto ao papo cinema, fomos assistir em meio à guerra fria (crônicas de uma guerra particular) a um filme soturno de acordo com nosso momento: Meu Irmão Quer se Matar, da mesma diretora (que eu não conheço) de Italiano Para Principiantes (que eu não vi) ¿ só para vocês saberem.

Esse não é um blog de cinema, nem de crítica, é um blog egoístico sobre mim. Portanto, não vou entrar no mérito do filme além de dizer que se trata da história de um irmão que cuida de outro com tendências suicidas e que apesar da sinopse não é um filme deprê. Aliás, eu bem pensei que era, e minhas olheiras bem escolheram a sala pelo título, elas confessam.

Por tudo que já passei - quem viu, viu, quem leu, leu ¿ eu logicamente me identifiquei com o suicida, numa relação de amor e ódio. A tristeza é algo sedutor, deduz-se simplesmente que alguém que sofre é alguém que além de demandar atenção, é alguém profundo, por só os fúteis conseguem o nível de satisfação e ainda chamam de felicidade. O que há de detestável na depressão, e eu posso falar com conhecimento de causa (dentro e fora) é o nível de egocentrismo ao qual a dor nos leva.

Imerge-se de tal maneira no próprio sofrimento e na autocomiseração que se torna incapaz de perceber qualquer outra coisa que não seja o umbigo sofrido. Quando se está na deprimilde é impossível enxergar o outro e se sensibilizar com o sofrimento alheio. O deprimido chega a ser amoral, já que ele lhe impossível se colocar no lugar do outro e imaginar como ele se sente.

Assim, houve uma cena que me socou, me reportou às minhas crises em que eu jogava a merda no ventilador e não concebia que minha mãe, minha irmã ou meu pai, ou meus amigos, tivesse qualquer tipo de problema que os impedisse de perceber o meu estado de insanidade. Senti vergonha e nojo de mim mesma, olhei pro lado, e finalmente depois dias imersa em mim mesma, eu o vi. Parei de me chatear com sua presença esnobe e distante.

Comecei a pensar que talvez ele estivesse também com problemas, mais reais que os meus, que nesse momento se restringem a um 1,85m de angústia, cabelos brancos de preocupação e um diagnóstico de loucura que leva nome de homem. E talvez ele embevecido em suas crises não tenha como me enxergar por mais que queira. E por isso, eu como bipolar, deprimida de quando e vez, deveria captar que se afastar é o movimento natural, e se trancar não quer dizer necessariamente desprezar o outro, somente não ser capaz de interagir naquele momento.

E apesar do fosso que se estabeleceu entre nós como um raio, naquele breve momento de lucidez, sob os flashes de pouco luz cinematográfica refletida sobre nós, percebemos que o outro também tem direito a sofrer, e que mesmo não sendo nossa intenção, ao existir, e estar ali compactuando o cenário, temos a nossa parcela de contribuição e culpa. E eu desenruguei a testa em sinal como bandeira branca, e ele me deu um pirulito como consolo e voto de sorriso. Se o fosso não tem ponte ainda, sabemos que do outro lado há alguém ao menos capaz de perceber que o sofrimento existe, além do próprio.

¿Eu não sou tão mal assim¿ foi de uma simplicidade e poética para dizer ¿eu sei que tudo ta uma merda e que eu tenho participação nisso, mas não quer dizer que não me preocupo com o que você sente¿, que minha tática de lobotomia através do desprezo se esvaiu. O quero como dantes para dentro do meu poço-fosso, que faço?


Quinta-feira, Agosto 24, 2006

Samba do grande amor - Chico Buarque

Eu gosto de filmes boba, inofensiva, despretensiosa e ridiculamente românticos não por tendências sentimentais, mas por me levarem risonhamente a pensar na minha vida afetiva de maneira não obrigatória, permitindo que eu devaneie em meu próprio ridículo sem ter que provar qualquer tipo de inteligência (principalmente a emocional, aquela que mais me falta). Já vivo num ambiente profissional pseudo-intelectual tempo suficiente e cabecisse às vezes me cansa.

Então (então é coisa de paulista)¿ Aí (isso, aí é nosso), eu passei por cima dos meus preconceitos e decidi assistir ¿Procura-se um amor que goste de cachorros¿. É sem dúvida um dos títulos mais idiotas que a versão brasileira já ensejou. Minha única razão para sucumbir ao filme era a presença de John Kusac, meu deus particular de Alta Fidelidade. E graças a deus a história nada tinha a ver com cachorros (nada contra os bichanos, desde que se mantenham à distância) e apesar de hollywoodiano, nenhuma defesa enjoativa de amores à primeira vista irrevogáveis até a morte.

O filme conta a história de uma recém-separada, abandonada pelo marido, pressionada pela família a seguir adiante e encontrar alguém, se mete nos encontros mais furados (via internet) pra se convencer de uma vida afetiva saudável. Eu podia cobrar direitos autorais por filmarem a minha vida, não fosse a história mais lugar-comum do universo.

Com a tal historinha bobinha, dei-me conta que todo tempo que passei desesperada pra me apaixonar por alguém, na verdade eu não buscava nada, além de um desculpa para mostrar as pessoas que eu que além de ser uma pessoa interessante, capaz de despertar o interesse alheio, queria provar que eu estava restabelecida e poderia retomar minha capacidade de amar.

Todas as vezes que me senti arrebatada (uma 1892439825723 mil por ano), eu estava mais obcecada em me ver apaixonada de novo e em me sentir normal que realmente interessada no meu objeto de desejo, por isso foram tantos, como se no fundo fossem todos uma coisa só, uma solução para os problemas. E não que não fora verídico o que senti por tiozinho da sukita, ou pelo homem-planta, mas a proporção que eu dava as coisas era mais de uma projeção mental de que correspondente à realidade de criaturas reais como eles.

E como a ¿desperate house ex-wife¿ do filme, depois das experiências ridículas, das decepções, o desespero e a busca dão lugar ao autoconhecimento e ao prazer da própria da companhia. E aí sim, quando se tem claro o que se quer (e principalmente o que não se quer mais de jeito nenhum), é mais fácil focar as possibilidades e confiar na incontestável função do acaso.

Eu nem queria sair de casa naquele dia, que era um dos mais confusos em São Paulo. Desapegada de mim, cortei os cabelos em frente ao espelho, queria uma cara minha, mesmo que não fosse bonita, e não me interessava o olhar dos outros. Vesti-me como quando não se quer ser vista. Discreta e nada sensual, a roupa estava até usada, largada em algum cabide. Se produzir por quê? Para quê e para quem? Fui. Tinha que ir. Minha amiga era a DJ da festa, minha única conhecida no ambiente, e a aniversariante uma jornalista e eu uma desempregada até então. Serviam como desculpas a mim mesma para encarar o frio daquela noite: ¿você precisa fazer contatos, foi para isso que veio a essa cidade¿.

Fui. Obrigada pela consciência como quem vai a uma entrevista de emprego que nem parece agradar tanto. Necessidade quase. Por mais discreta e imperceptível que quisera parecer, as pessoas pareciam notar tamanho desencaixe. Minha amiga ocupava-se com suas trilhas e em esquecer o súbito desaparecimento do paquerinha canalha. Eu queria embora, e pensava em como passar o tempo até que fosse minimamente educado poder sair.

Sentei à mesa, vazia, pedi uma garrafa 600ml de cerveja como só os bêbados solitários fazem, e fumei de nervosa e tensa. E se eu tivesse levado um livro? Seria muito ridículo puxar um companheiro de emergência numa festa? Onde estava meu lado social? Devia eu sorrir? Por que motivo?

Absorta em meus próprios pensamentos fui surpreendida por seu sorriso misterioso como aquele que Da Vinci pintou. Sentou-se a minha mesa, conversamos, achei ótimo não ser único ser que sobrava naquela festa. Que conversa interessante! Pensava eu entre cigarros quando ele foi abordado por uma garota que lhe demonstrava afinidades.

Lá se ia minha companhia do bloco do eu sozinho, minha amiga DJ apareceu como socorro, e sentamos os quatro, em conversas paralelas, enquanto nos olhávamos encabulados até que pudéssemos retomar nosso papo particular e solitário. O bar fechou e ainda falávamos da vida, sem pensar em sexo, sem querer impressionar e conquistar um ao outro como troféu.

Havia mais assunto para outro bar, pausa para coca-cola para controlar os ânimos alcoólicos e o gentleman atravessou a cidade para me deixar em casa. Beijo de boa noite (no rosto) e troca de telefones. Abro a porta sabendo que aquela foi a noite mais surpreendente que tive e ele a pessoa mais interessante que encontrei por aqui. Não me deu chance, mas nada me impediria de querer-lo como amigo.

Passamos a semana em contatos meigos por email e torpedos, e sozinha em casa o recebi para uma pizza. Gripe, chá de alho, discos e sofás separados, clima zero com o homem que já sabia que queria. Madrugada a dentro, beijos de despedidas amigáveis e renovo as esperanças em outro encontro. E assim seguimos nessa descoberta assexuada e inconsciente do prazer da convivência intelectual por semanas, e curtimos teatro juntos (diversas vezes), almoço romântico na toca do lobo, até que a proximidade descamba na atração natural dos corpos e dá-se profusão ao que se quer.
E de repente, sem querer, sem imaginar, sem buscar, sem noiar, surtar e enlouquecer, eu vislumbro a paixão docemente manipulando meu sorriso como um títere. E Cérebro nem precisou explorar o pink para que o mundo conspirasse a meu favor. É divino querer alguém pelas suas qualidades simplesmente e não precisá-lo. Não há busca quando não há necessidade. Não há dependência quando não há carência. Não existe desespero quando o autoconhecimento domestica a solidão. E a boa literatura interpreta como acaso, o que realisticamente sabemos que nada mais é que o momento emocional fértil e adequado para o qual estávamos nos preparando até então.

E minha joaninha amada me questiona como consigo tudo que quero, como sempre abato como uma gazela o objeto dos meus desejos. E claro para que o consumo há táticas de mercado por mim dominada há séculos, fazer-se notar é uma arte. Mas dessa vez eu fui a presa da minha não-estratégia, eu caí no pulsar manipulado pelo inconsciente no meu primeiro vôo de borboleta azul recém saída do casulo.


Quarta-feira, Agosto 16, 2006

Happiness Is A Warm Gun - World Party

Já faz muito tempo que não escrevo, e meio que involuntariamente o blog foi desativado sem notícias, mas vou tentar me fazer mais presente. Agora vivo um processo inverso ao que me levou à reclusão. Antes não tinha muito a dizer apesar de excessivamente me sobrar tempo para pensar. Queria fica quieta. Agora tenho bilhões de coisas a compartilhar, mas o universo fulltime de sampa já me engoliu, e não me restam horários para pensar ou falar de mim.

Estou no horário de almoço, por isso vou dar notícias a conta gostas, notinhas expressas, lembrando os tempos de jornal. Sim, para os bons entendedores isso quer dizer... horário = trabalho. Venci a primeira etapa da empreitada kamikasi de vir pra cá. Consegui um trabalho, em melhores condições do que eu poderia imaginar antes de deixar a lama do Recife. Vamos às notinhas...

E as coisas caminham...
Tudo que eu imaginava que ia conseguir de primeira era um freela, uma ou duas pautas em algum veículo, ou cobrir férias, até por ir mostrando meu trabalho. Mas a vida sempre me surpreende e me reservou uma vaga fixa, com carteira assinada, num veículo de repercussão nacional, e o que é melhor, escrevo sobre o que gosto e entendo: cultura. Estou no céu. Agora só falta conseguir um lugarzinho pra mim, mas tendo salário, já fica tudo mais fácil né?

Meu coração... bate feliz
Depois de tocar terror à la PCC, já meio que mapeei meus reais interesses afetivos por aqui, ao menos por enquanto. Estou encantada por um cara mais velho e bem vivido, intelectualmente somos almas afins e estamos virando bestfriends. Ele é um gentleman, e se me desse corda, já tinha me enforcado... Bom, top one ainda é sonho de consumo não consumado, e até então não me parece injusto eliminar as outras possibilidades. Há ainda um jovem de mente complexa que faz mestrado em sociologia que já principiou um flerte inconseqüente, o francês delícia que parece querer começar a me dar mole e um quase punk lindo de morrer que andou perguntando por mim interessadamente... Depois eu tento contar as situações que conheci cada um, e a que pé eles andam na cotação da minha bolsa.

É isso, vou aproveitar o horário de almoço e fazer coisas normais como comer agora. E aos 9 fiéis leitores diários, thanks pela perseverança de seguir entrando todos dos dias só pra sondar se derrepentemente eu ia escrever algo, tentarei ser mais assídua.


Domingo, Julho 02, 2006

Em lun house não tem trilha sonora

É bem verdade que mudar de cenário nunca foi uma saída eficaz para se fugir de problemas. Principalmente quando são de ordem interna, eles nos acompanham, por que mais que se mude o ambiente. Mas cá pra nós, estar na cidade maravilhosa, passar a tarde com amadas amigas e ainda tirar o fim de semana num paraíso como a Ilha Grande, pode não resolver nada - afinal, ainda tenho contas pra pagar que não vão desaparecer como mágica ¿ mas ao menos não conheço outro remédio para restaurar o bom humor como esse. Serei eternamente grata ao amigo que me socorreu numa má hora e me deu uma puxada até aqui. Senti de novo o sentido de estar feliz.

Afora esse restart no equilíbrio emocional, esse momento zen de restauração psíquica ante à natureza, essa coisa viagem que todo mundo sabe. Muito do que experimento aqui e antes, nas insônias corriqueiras, é um emaranhado de lembranças, boas e ruins. Pra quem ainda não sabe, estou passando por dias de adaptação e dormir tem sido uma aventura insólita. Afinal, saí da casa de mi lady e sua acolhedora hospedagem, pra virar morando de favor, num flat de um amigo, e agora percebo as nuances de se estar só, vivendo num impessoal quarto de hotel, sem espaço nem pra pendurar as calçolas, já que num banheiro, morando com um homem, estendê-las no banheiro é uma idiossincrasia feminina impraticável.

Recapitulando estes últimos tempos, fui pra balada na quarta, pretendendo manter-me tetéu até às 4h da matina, pra me aventurar a ir pra Garulhos pegar o matutino vôo SP/Rio. E lá fomos eu e um amiguinho friendly se jogar no Saraievo. O público era uma coisa pânico: rappers, regueiros e afins... ai mainha que medo desse povo que fala os mano, as mina. Ficaram então as recordações de uma das noites mais interessantes que passei em sampa até agora, com Jorge Tadeu, com direito a Milo Garagem, chapação, Saraievo e fazer banheirão (quem entendeu, entendeu, quem não sacou, é piada interna mesmo). Enfim, como já diria Marcelo Madureira e Artur Dapieve, a noite no Saraievo indicava que não passaria de ¿um tremendo 0x0¿, então, num movimento corra-lola-corra, vasamos para a Fun House, o reduto indie expressamente indicado pelo meu paulistinha residente no Recife.

Assim rolou mais um momento de lembranças, pensando no paulistinha, nas minhas baladas indies, no meu passado junkie, e dos meus bafões. Até da Non Stop eu lembrei. Meus cálculos deram errado e o zero a zero se confirmou, fim de noite mais repentino, e às 3h já estava no flat. Precisava de mais uma hora e meia até começar a funcionar o metrô e eu pudesse ir até o terminal Tatuapé pra pegar o busão até o aeroporto de Guarulhos. Cochilei me garantindo no despertador que não tocou, acordei às 7h no susto e nem fodendo, voando, ou me teletransportando eu conseguiria chegar lá às 7h30, hora prevista do vôo. A única opção foi adiar a passagem: um dia a mais em sampa, um dia a menos no Rio e nada de ver o jogo no circo voador, fazer o que né? Dos males o menor, deu pra curtir o jogo no Butantã, no nosso churrasquinho que já virou clássico na casa de lady.

Voltei à noite, bêbada, tirei um cochilo regado a pesadelos, e sai 4h40 da matina, ainda escuro, Rua Augusta acima, vendo as raparigas remanescentes, com uma mochila enorme, pra pegar o metrô, descer no Tatuapé, e ainda pegar um buzon até Guarulhos. Se eu soubesse que meu vôo atrasaria nada menos que 4 horas, não teria me abalado pra chegar lá às 6h20 da matina.

Enfim, pousei no Rio ao meio-dia, e fui encontrar minhas meninas, deza, jojo e melga, para um almoço. Feijoada no prato, estava com desejo acumulado, já que no calendário gastronômico paulista, é lei que feijoada só às quartas e sábados, o que nem sempre coincide com a minha vontade. Tarde feliz, lá fui à noite para Ilha Grande, com meu amigo protetor. Mesmo quarto, camas separadas, e ao contrário do que muita gente especula, eu não traço todos os meus amigos, e sei bem separar amizades. Rolou nada não. O fim de semana foi bárbaro, restabeleci todas as energias, o bom humor e as esperanças de dias melhores, acho que o sol tem esse poder de deixar as pessoas um pouco mais otimistas. Frio deprime, é minha mais nova teoria.

Enfim, de volta ao Rio fui encontrar meus queridos tijucanos da família Cabral. Fomos à Casa Rosa, samba, rock e funk no mesmo lugar, tenho medo do ecletismo carioca, mas ok, a turma é muito amada, e foi tudo uma beleza. No outro dia, fui pra uma entrevista furado, no sonho de trampar no rio e esquecer sampa... ainda não foi dessa vez, o sonho vai ter que esperar, como o hexa.
Na terça fui junto com as meninas ver o jogo em Niterói, no arrego do arrego, fomos pra um churrasco na casa de um amigo de Romer, que das meninas só conhecia Jojo e eu, e eu nem tinha sido convidada, enfim, apesar de toda uma situação meio inconveniente da nossa chegada, acho q a turma do churra, que era excessivamente nerd e só tinha cueca, ficou alegre de ver tanta mulher bonita junta e tentando interagir com eles.

Cheguei de volta à casa de Iemanjá de Açude trêbada, e ainda tive que arranjar forças pra encontrar o Boris? Lembram aquele pão francês que eu conheci e corri da raia, logo quando cheguei em sampa? Pois é, ele mora no Rio, e fui encontra-lo, jurando que ele ia com uma turma, como o meu outro amigo francês sempre faz, sempre que estou louca pra ficar sozinha com ele. Enfim, o bonitê foi sozinhê, e eu fiquei passê. Eita homi lindo. Não peguei, pasmem. Mas sabe quando há mais interesse em conhecer a pessoa profundamente que dar uns amassos que não levar a nada, preferi manter o belo como amigo, afinal ele é um fofo e vale muito conversar potoca com gente interessante.

Na quarta foi mágico, cineclube em Duque de Caxias, grandes amigos, arraial junino, e ainda sinuca na Lapa, minha estréia no esporte de macho, foi massa ficar bebericando e acertando (ou errando) as bolas até a hora de ir pro aeroporto. Não peguei ninguém no Rio, e foi a semana mais feliz do ano, por que estar com gente amada, valeu mais que tocar terror. De volta a sampa ainda fui trampar no freela e encontrar amigos pernambucanos numa cachaçaria que agora vou virar freguesa. Quase 48hs sem dormir capotei, até a hora de ir pra casa de lady e assistir aos jogos de Argentina e Itália. À noite, cinema, filme interessante: O Amor em Cinco Tempos, tenho um monte de coisa pra falar sobre ele e as impressões que me causou, mas acho que merece um post exclusivo, fica pra próxima. Depois, cachaçaria pra esquentar ¿ não disse que já tinha virado freguesa?

Então, nesse diário, agora que começa a história interessante. No mesmo dia que voltei do rio, antes de trampar à tarde, tive um ¿almoço executivo¿ com meu uruguapo, que ainda não tinha encontrado desde que vim morar aqui. Tarde tórrida e linda, e realizei que quase 50% do meu humor soturno era falta de sexo. E sabe como é né? Quando se está bem sexualmente, mais atraente se fica.

Fui na sexta pra despedida de Xavi, que está de malas prontas pra voltar pra França. Sabia que lá eu encontraria o francês que não me dá mole e o negão tudo de bom e mais um pouco que eu fiquei uma noite dessas. Fui sozinha, bem à moda paulista, que agora eu sou uma mulher moderna. Conversei com meus paquerinhas em potencial, levei cantadinhas de outros que não estavam na mira, mas me chamou atenção um baixinho barbado na pista, que acompanhava os sets pernambucanos que parece ainda ser a última moda nos set lists metidos a alternativos de São Paulo. Então, ou ele era recifense, ou ele era daqueles paulistas que acha que Recife é maneiro e nossa música não tem igual. Esses definitivamente não são meus paulistas preferidos, mas o menininho cantando Chico Science me chamou a atenção e eu não sabia porquê.

Fim da noite e muitas cervejas depois, ele estava encostado no balcão, conversando com o dono do bar, quando eu fui buscar mais uma breja gelada, que eu não precisava nem mais dizer ao rapaz, quando me via já respodia ¿já sei, aquela estupidamente gelada de lá do fundo do freezer¿. Adoro garçons que me compreendem! Enfim, ele estava lá. E não pude deixar de reparar quando ele usou uma expressão que só pernambucano conhece, peguei no fim da frase ¿os caras estavam de pirangagem!¿ e só quem passou pelo Recife sabe o que é piragagem. São Paulo e o álcool me fazem mesmo muito moderna e desenvolta então soltei o verbo e comecei o papo: ¿êpa. Piragagem é algo que só na minha terra se fala, entregue-se logo se você é de Recife¿, ele disse que não, que paulixxta, mas que já tinha morado lá. Engraçado que nessa mesma noite conheci um recifense com sotaque paulista, e ele com sotaque totalmente nordestino. Esse povo vira-casaca...

O papo foi todo então sobre o Recife, e descobrimos milhões de lugares e conhecidos em comum, e de repente era como se não houvesse mais ninguém na festa além de nós dois. E o amigo ele se despediu do amigo dizendo que ficaria por lá, e eu nem importei quando ele me beijou na frente do negão, agora, ex-paquerinha. E fomos pra casa dele. Acho que era a segunda vez na vida que transei de prima com uma pessoa com quem nunca tivesse conhecido antes. Claro que já transei em primeiros encontros, várias vezes, mas assim ao acaso, é raríssimo na minha biografia.

Foi tudo tão mágico, achei engraçado quando ele disse ao taxista que nos levava à sua casa para parar na farmácia que estava faltando ¿sabonete¿ em casa, tico e teco levaram um tempão para processar que sabonete era o código pra preservativo. E ele realmente comprou o sabonete pra disfarçar, morri de rir. E liguei meu desconfiômetro quando vi uns três sabonetes na bancada da mesa dele, denunciando que era um golpe recorrente.

O tempo foi tórrido e caliente. 6 horas. 6 vezes. Sem sono. Muito papo, brincadeiras, e carinhos na gata preta coincidentemente parecida com a minha tatuagem. E ele até me convidou por educação para a festa de aniversário dele que ocorreria justamente na noite do dia em acordamos juntos. Mas lógico que educamente eu não iria, nem pra bancar a me-comeu-agora-somos-íntimos, como estava temerosa de ser obrigado a vê-lo com suas outras histórias de sabonetes. Mas foi uma das melhores experiências que tive até aqui. Desde o homem-planta, que não tinha uma experiência de prima com tanta entrega, interesse e intimidade, foi intenso. E olhe que no caso do planta, eu já estava de olho nele há meses.

E nem sei se a gente vai se ver, e saí de lá com a sensação que ele nem lembrava meu nome. E talvez a gente nunca mais se veja, e ele me considere apenas mais um sabonete, porém talvez eu acredite em sinergia, e a vontade que eu tinha pareceu-me recíproca, e o prazer de ter encontrado alguém bacana também. Mas seja lá o que for, não me arrependo de nada, que como canta o ratinho do programa Ra-tim-bum, ¿banho é bom, banho é muito bom! Agora acabou¿.


Segunda-feira, Junho 19, 2006

It´s all over now, baby blue - Bob Dylan

Ócio é mesmo a oficina do diabo. Para uma pessoa atacada como eu, ter tempo é uma verdadeira tortura, e me deprime, me dá espaço demais para pensar. E se eu já sou excessivamente autocrítica, dar vazão a reflexões demais pode me levar à beira da insanidade. Penso tanto sobre a vida e seu sentido, ou a falta dele, que minhas noites insones estão cada vez mais longas. Haja (im)produtividade mental.

Enfim, de tanto pensar chego àqueles pensamentos filosóficos de botequim que de tão lugar comum se fantasiam de descobertas arquimedianas. Num cruzamento de zapeamento de canais a cabo, vendo aquelas séries americanas enlatadas pra público leitor de auto ajuda cheguei à ¿brilhante¿ descoberta que os conflitos instintivos nascem inerentemente com o homem, o que buscamos apenas caracterizar como nichos de crescimento ou maturação, nada mais é que um falso rebuscamento dos conflitos que não passam dos mesmos com os quais nascemos.

Não precisa ser nem um freud para concluir que do choro por afago materno à depressão pelo vazio existencial de uma frustração obliqua, o que muda é apenas a motivação, o desejo, intacto, é o de aceitação e afago. Crescer é então tucanar as necessidades e fazer com que elas pareçam mais nobres, quanto mais tergiversamos ou sublimamos, como diria a psicanálise, somos considerados mais profundos e sábios.

Mas na briga entre ID e Superego, luta essa que ganhou alegorias bem eficazes nos desenhos animados, quando o personagem se vê às turras entre as influências dissonantes de sua versão anjinho e diabinho, meu ID ainda vence, sempre, com minha impulsividade indomável. Mas se crescer é mudar de foco e abstrair a questão, então posso dizer que a partida me levou de um ciclo evolutivo a um outro nível de crescimento.

Então, crescer é mais que acumular velinhas, e os ciclos são demarcados de gestos, mais que de folhinhas no calendário. As diferenças ínfimas encontram-se nos detalhes dos desejos e fobias, o conteúdo essencialmente não muda. Passar de uma fase a outra é deixar de querer o peito para querer o carro na vitrine, a brincadeira de bonecas dá lugar ao jogo de sedução com o sexo oposto, e o medo do escuro se transforma em medo da morte, e o temor e a incompressão ao alheio e ao diferente, se agrega a um pânico de si mesmo, de não encontrar-se.

Não fazer essas transfusões é sinal de um retardamento emocional, por conseguinte, já que faze-las parece ser elevar-se a um nível superior. Então, se crescer é mudar de foco, ou de problemática, indo mais além. Comemoremos, eu cresci! Lembro-me que nos últimos anos minha vida no Recife era coroada pelo conturbado vazio de uma vida emocional instável. Não ter uma relação saudável ou em circunstâncias minimamente satisfatórias era uma preocupação obsessiva, e a minha promiscuidade em avanço nada mais era que um reflexo dessa carência mal assumida. Cada vítima abatida em minha alcova, nada mais era que um gesto desesperado disfarçado de altivez na busco de um dorso seguro onde ressonar. Existe coisa mais adolescente que, mesmo que involuntariamente, desprender toda a energia voltada num outro que não existe?

Sem dúvida São Paulo me trouxe outros problemas, a falta de grana, o corte do cordão umbilical, as frustrações profissionais, a crise existencial do recém-formado, enfim, são muitos baques numa mesma lapada. Mas ao menos, me parecem, que atingi um outro nível (superior ou não) de questionamentos. Estou tão focada para dentro de mim, que não sobre energia para me preocupar com a ressonância social dos meus atos. A reclusão é um dos sintomas de agora viver para mim e não para que os outros gostem de mim. Se agora escrevo menos, perdoem amigos, é por que me exponho mesmo, por que já não sinto necessidade de fazer graça ou polêmica para que lembrem da minha existência.

E as vivências da solidão me estão sendo engrandecedoras. Já diria as leis espíritas que só é possível evoluir ou pela dor, ou pelo amor, como amor nunca foi meu forte, a opção acaba sendo a porrada mesmo. Rompida a barreira do primeiro mês, a relação de descoberta se transpõe da cidade para meu self. O estranhamento não se dá mais pelas avenidas largas, os engarrafamentos quilométricos, os ônibus que mudam de linha, as linhas de metrô que se cruzam, as ruas que são uma só mais levam três nomes diferente sem avisar, os prédios, o PCC, o preço da balada, e a infinidade de coisas que se tem pra fazer. Já me sinto mais localmente adaptada, já não como alguém que visita, mas como alguém que vive.

Não sou paulista nem me arremetei pelo paulistês, nem pretendo que isso ocorra, mas de certezas, posto o período de experimentação, fica a única conclusão que este é o lugar onde quero ficar por enquanto e de onde não pretendo sair até que coisas aconteçam. O medo de não gostar, de não se adequar, de se sentir só, de morrer de saudades, de querer voltar ao útero como um bezerro em desmame, tudo isso já passou.

O sentir só ganhou uma dimensão mais adulta. É uma situação inversamente oposta ao tipo de solidão que vivia antes. Em minha arrogância adolescente fruto obviamente de uma insegurança infantil, eu achava que não precisava de ninguém, era autônoma e dependia dos meus próprios méritos apenas para galgar minhas conquistas, em contrapartida, minha auto-suficiência era tão tênue que sentia dramaticamente a necessidade de (des)aprovação e atenção, precisava me perceber querida ou odiada, mas jamais ignorada. Podia até não me importar com o que outros pensavam, afinal de contas, eu era a badgirl, mas mesmo assim, talvez eu desse alguma relevância em saber se pensavam em mim ou não. Tinha no fundo, e só agora percebo, o desejo narcísico de crer inocentemente que eu fazia alguma diferença.

Quanto mais especial eu tentava parecer, quanto mais demonstrava não precisar dos outros, mais no fundo eu necessitava deles. Vivendo uma situação inversamente proporcional, que me levou a um novo grau de humildade, depender, em situações pragmáticas, da ajuda de outras pessoas, fortaleceu a segurança que tenho em mim mesma. Não é por nariz arrebitado que deposito em mim as conseqüências das minhas decisões, mas por falta de opção, sou meu único pilar, não dá pra culpar ninguém.

Enfim, encontrei em mim mesma o foco dos meus questionamentos e interiorizar os problemas ao invés de responsabilizar os fatores externos, para mim já abre a prerrogativa de um processo de modificação, evolutivo é apenas uma questão conceitual.


Terça-feira, Maio 16, 2006

Asi es la vida compay - Ibrahim Ferrer

Meu momento umbigo do mundo. Eu acho que não nasci no 11 de setembro impunemente, sinto que estou designada astrologicamente a ter minha vida ligada a grandes acontecimentos trágicos de enorme repercussão pública, como terrorismo. Não bastasse a queda das torres gêmeas no meu niver de 20 anos, lembro que no meteórico período que eu passei no Rio no ano passado, houve invasão do exército nos morros, morte de líder traficante na Rocinha, com direito a luto e toque de recolher, e ainda um mega-temporal com diversos mortos. Agora, mal caí em sampa, a cidade já está sitiada.

Vamos agora ao balanço da segunda semana na Paulicéia e aos principais eventos, até por que as balbúrdias do PCC vocês podem acompanhar pela TV, a minha vida, graças a deus, não. Esses dias foram bem de autos e baixos. Logo no começo no começo da semana caiu a ficha que eu não estou aqui a passeio, e que a vida não é férias. Com a realidade, algumas decepções.

Como pode se chegar numa cidade estranha, sem grana e sem emprego, e uma pessoa que você considerava grande amigo e tinha te convidado pra morar um tempo com ele simplesmente se negar a dar hospedagem por que há duas semanas tá comendo uma bisca, e a bisca além de dominatrix é ciumenta, e não acha legal que o macho, que nem é namorado, receba uma amiga mulher? Onde foi que eu parei que de onde eu venho é bizarro se deixar dominar por alguém assim e mais bizarro sacanear com alguém que se diz amigo e que depende de você? Foi mesmo um duro golpe, chorei horrores, mas eu vim aqui pra isso né? Encarar a vida, me virar sozinha e enfrentar as dificuldades... ¿Não pediu uma bicicletinha? Agora pedale!¿

A grana acabando, os contatos não retornando, não sabendo onde enfiar currículos e nem a quem recorrer... enfir, desenvolver algo que nunca tive: a paciência, esse é o espírito.

Agora, as coisas boas, que já me disseram que eu estou parecendo uma pessoa amarga desde que aqui cheguei e não é verídico. E assim, com dificuldade ou não, sempre se dá jeito para o amor, a diversão e a putaria.

O domingo passado vivi meu encontro de filme água com açúcar. Porque só em ficção cinematográfica alguém aceita encontrar o amor da vida, uma vez por ano, por uma única noite, e achar isso lindo. Ninguém entende porque eu não gosto do filme Antes do Pôr do Sol, acho que é por que enquanto pra todos os fãs parece uma história de outro mundo, para mim é a realidade mais nua, crua e dura, tão comum como ler um jornal... Deve ser isso.

Foi lindo, mas faltou tomar coragem de pedi-lo em casamento como o previsto, não pelo medo de levar um fora, mas pelo temor de quebrar a magia, de cair da cama. Assim, ficam cenas para os próximos capítulos, ou seja, ano que vem tem mais...

Aventura mesmo, como esporte, foi reencontrar essa semana Jorge Tadeu, fumar um beck envenenado e perder a noção de perigo para fazer loucurinhas. Tem gente que tem a incrível capacidade de despertar nosso lado mais insano. Ainda bem que nossos encontros também são bissextos, anuais no máximo, por que não teria fôlego.

Pausa, pára tudo. Eu já era completamente descontrol por cartões postais, e São Paulo realmente me dá muitas alegrias para manter minha coleção, mas como assim eu encontrei um bar cujas paredes são TODAS colagens de post cards e outras propagandinhas e cartazes? liiiiiiiiiiiiiiiindo, e lógico que eu vou virar habituê do local que se chama Flyer, descolado, barato e bem decorado, quem vai estar lá sou eu.

Como cachaça ainda mata um corno desses, cachaça + frio mata em dobro. Estou fudida de gripe. Porém nem congelando eu largo osso, não me deixei abalar. No dia mais triste, mais frio e em que finalmente fui recebida pela garoa, cantei pra subir e fiz a balada mais gueto desde que por aqui cheguei. Fui ver Mateus Poder Dançar no Studio SP, tem coisa mais pernambucanidade que chegar em sampa e ir ver show de projeto paralelo de Nação Zumbi, Bonsucesso e mais um monte de músico da ceninha. Achei pouco e ainda soltei meus leões cantando Leão do Norte (medo!) e dançando coco, praticamente pagando mico, por que paulistas são muito poser, mas dançar que é bom, eles tão bem fora da proposta.

Tem coisa que eu realmente adoro em São Paulo, como a galera aqui é mais metódica pra paquerar, eufemismo pra dizer que o ritmo daqui é mais devagarzinho mesmo, que ninguém chega pegando ou se esfregando (não to reclamando, eu acho ótemo), acabou-se desenvolvendo uma práticas para estimular contato... Por exemplo, a melhor invenção paulista ever é a fila de banheiro unissex. Além de acabar com aquela injustiça social de 50 mulheres (ô castigo) enfileiradas enquanto os homens passeiam, é uma ótima hora de conhecer gatinhos que estão lá de bobeira.

Recapitulando a noite em clima de manguecéia, tudo não podia acabar mais em casa que fechar o porre fim de carreira chegando às 5h da matina no Mercearia, já de portas fechadas, e sendo recebida pela comunidade pernambucana que ainda brincava de boemia lá dentro.

Enfim, foi um fim de noite falando sobre os novaes e ferraz de Floresta, e discutindo com o famoso xico sá, que não deve ser considerada uma criatura normal depois de afirmar que chico buarque não é genial, é ¿só bonzinho¿. Calma mulheres, como resposta eu afirmei que não poderia levar em consideração a opinião de alguém que foi o responsável por bruna surfistinha ter se tornado uma celebridade. Não tinha ainda rido tanto, me divertido tanto e bebido de tal maneira. Foi a noite mais bagaceira desde que aqui pisei. Primeiro bafão: Jorge Tadeu me resgata do banheiro (masculino) quando estou abraçando celite e chamando raul, apago no táxi, desço e dou um beijo nele (que não deve ter sido agradável) pego o ônibus, apago de novo, vou parar no terminal, me perco algumas vezes em outros ônibus e chego na casa de lady umas 7h. No outro dia me institui o troféu seqüela.

E ai, começar o fim de semana num climinha light vai superbem, então aproveitamos a gripe, o tédio e o medo do PCC pra fazer um foundie no sábado. A vantagem do frio é que o foundie cai mil vezes melhor e finalmente é possível tomar vinho sem pôr pra gelar (que altera o sabor).

No domingo fui conhecer o amigo francês do meu amigo francês, meu amigo está em paris e o amigo dele mora aqui em sampa. Divertidíssimo torcedor do São Paulo (só pq era o time original de Raí, ídolo absoluto do Paris de Saint Germain). E aí entra em cena a minha versão mais mulherzinha besta que eu já conheci. Estava com esse neux ami (eh assim que se escreve, manu?) um outro francês, o cara mais bonito com o qual eu já conversei em toda minha vida.

Vocês já viram o filme Infidelidade, que tem um francês valha-me-deus que muito justamente deixa richard gere no chinelo, cheio de gaia? Apois o bofe é a IGUAL, a cópia xérox do ator. E além de lindo de doer, o cara era super acessível, conversa ótima, mora no rio de janeiro, já morou em londres, toca piano e ainda é tímido, alguém pode querer mais alguma coisa? Pois eu não quis, não to dizendo que ele deu em cima de mim, mas tava disponível se eu quisesse soltar a puteza, tenho certeza.

O que deu em mim? Bem, vários fatores, o primeiro, que era a primeira noite que saía com o amigo do meu amigo, não me parecia legal catar o amigo dele e depois ficar ligando pra ele pra chama-lo pra sair, mesmo que ele não tenha demonstrado nenhuma objeção. Depois, uma amiga dele que foi pro mesmo bar que a gente, surtou pelo boniton, e eu já fiz muitas coisas patéticas na minha vida, mas disputar macho, graças a deus não esteve entre elas, e a menina tava tão desesperada, que fiquei na minha... toma-que-o-filho-é-teu.

Além de tudo isso chegou mais um francófono na roda e esse se mostrou bem interessado, e entre um cara que eu preciso tomar atitude e que vai embora no outro dia (eu já cansada das recentes histórias com soulmate e jorge tadeu) e um cara que tá cercando e mora na mesma cidade, estou lucidamente preferindo a segunda opção, que acabou virando terceira. Porque o cara em quem estou interessada desde os primeiros dias que cheguei me ligou pra dizer ia passar lá pra me encontrar. Saí da balada no melhor da festa com os franceses gente boa pra ir tomar uma ¿breja¿ com carinha. Não rolou nada, mas mesmo assim saí toda felizinha, ainda mais empolgada, não é que descubro hoje no orkut que o carinha tem namorada? Eu mereço, quando eu decido focar as coisas, atiro para o lado errado, é a lei de murphy. Bola pra frente.


Sexta-feira, Maio 05, 2006

Enough - Yo La Tengo

Precisei sair de casa, mudar de cidade, para me dar conta que existe vida além do mundo virtual. Pensei que adoeceria sem o uso diário (pra não dizer horário) intermitente de um computador. Mas o homem é um ser adaptável e não só ainda não sinto falta do Recife, como não sinto também do orkut, do msn, do skype, dos fotologs, dos blogs, enfim, estou sobrevivendo como uma mocinha aos meus primeiros dias de retirante sem teto e sem emprego em Sampa.

Minha despedida da capital pernambucana foi traumática. Nem perto de metade dos amigos que eu esperava que aparecessem, se importassem, que quisessem me ver e torcer por mim, deram as caras na minha festa. Acho que esse foi um dos motivos que repensem a popularidade internética desde lá.

De que adianta ter mais 500 ¿amigos¿, mais de 100 fãs no orkut, se é possível ver, tocar, contar com menos de 50 pessoas? Dessas, 49 trago comigo e pra sempre estarão em mim, uma apesar de ter comparecido, era melhor que nem tivesse ido. Há decepções e decepções e creiam, ausência e abandono nem sempre é a pior.

Enfim, a sensação de solidão entre muitas pessoa me veio como uma boa revelação. No fim das contas foi até uma boa experiência, poder chegar por aqui com a certeza que não se está deixando um lugar ao qual se pertence de fato, e que muito da vida que eu tinha era uma mentira, e que estar só e ser autosuficiente São Paulo não me oferece, de sobremaneira, como novidade alguma.

Acho que por isso nada estranhei por aqui, nem a frieza das pessoas, nem o anonimato, o ritmo, a falta de tempo, o estresse, ou o lema se-vira-nos-30. Tenho o que sempre tive, mas agora é bem mais resolvido, porque tudo que é explícito é mais fácil de ser encarado. Buenas, o que houve de ruim deixo por lá, e as boas lembranças carrego em histórias que contarei ad infinitum.

Falemos de Sampa né? Que o assunto que quem ainda me acompanha (agora à distância) quer saber. Estou eu acá muy bien instalada na casa de bonina, nos aprazíveis confins do Butantã, curtindo os dias ao lado de seus filhos lindos e de Louis. Ô casal que me ensinou a fazer farra! E apesar de todas as novidades da big city, essa situação me traz uma sensação de velhos tempos, que é um regaço.

Logo na chegada, fomos almoçar comida nordestina na Vila Madalena. Assim, o baião de dois não era bem como o da minha vó, digamos que os nordestinos daqui sejam meio diferentes, mas tava tudo muito bom. Aliás a Vila já é praticamente meu habitat natural. Em 5 dias, passei por lá menos umas 4 vezes e bebi 3 noites. Enfim, é o ¿pólo¿.

Só me dei conta de estar realmente vivendo São Paulo, quando fui bater perna na Paulista, na Augusta, na Praça da República, no Minhocão, no Centro, na Ipiranga com a São João, no metrô, e até na área da cracolândia. Tudo isso só foi possível graças ao Guia 4 Rodas TODAS AS RUAS DE SÃO PAULO 2006 (R$ 27,99), com tudo mapeado, e acompanhado grátis o Guia de Ônibus 2006 com todas 997 linhas que passam por essa pequenina cidade. Não se perder, não tem preço!

Acho que deixei no Recife também minha personagem tocadora de terror, minha promiscuidade súbita e intensa, que estava assustando até a mim nesse último mês, parece que ficou por aí. Aquele fogueteio era achaque de despedida. Vida nova, calma nova, piriquita zen. De Paquera mesmo até agora só rolou momento figurinha repetida com Jorge Tadeu, que sempre ¿vale à pena ver de novo¿, totalmente irresistível.

Eu realmente adoro os homens paulistas, é fato, e suspeito que muito em breve vou escolher um só pra mim e aquietar o facho de vez. Se duvidar eu até já desconfio de quem pode ser o escolhido. Tem um cara muito fofo, que eu faria linda sem pestanejar e que se derrubar é pênalti! E adoro que nessa cidade se tem pressa pra tudo, menos para conhecer as pessoas, aqui tudo é com calma, por que o povo (principalmente os homens), pelo menos pra isso, é meio devagar.

E o jogo da sedução é diferente, como o frio ta bem de rachar, coisa típica daqui, e todo mundo aqui anda empacotado, o flerte se dá muito pouco pelo corpo, como é comum no Rio ou no Recife, ninguém precisa estar com barriga de tanquinho, por que não vai ter como mostrar mesmo, e nem que vc queira dá pra andar por aqui como uma vitrine de sex appeal.

Acho que isso meio que ajuda a tornar o olhar do paulista diferente (se não for, pelo menos eles disfarçam muito bem, e clap clap, isso é uma arte), e você percebe que uma cara está dando mole não pela sacada que ele dá na sua bunda, mas pela disponibilidade que ele demonstra em lhe ouvir por horas. Enfim, façam corrente de fé pro paulistinha interessante entrar na minha.

Por fim, o balanço da semana... no bolso, as coisas que mais me agradaram e mais me chocaram.

Adorei:
¿ Comprar uma bota marrom bunitinha por apenas R$ 19,90
¿ Fazer a feira na Neto Discos (essa tenho que agradecer ao meu indie pela dica), e consegui comprar cds de Beck e Bob Dylan por R$12 cada e ainda 3 originais de Yo La Tengo por R$ 6 cada! De graça! \o/
¿ Pagar R$1 em três, eu disse três, enormes pães de queijo, daqueles autênticos mineiros
¿ Saber que posso ver nesses domingos da vida coisas como Zeca Baleiro ou Balé Stagium dançando músicas de Chico Buarque por menos de R$6 o ingresso. Pra quem gosta tem até Guilherme Arantes de Graça, mas eu to correndo longe.

Detestei:
¿ Saber que caipirinha aqui tem preço europeu e os tempos de uma dose por R$1,80 no Paidégua se foram pra todo sempre, aqui caipirinha mais barata é R$7 e o preço médio R$10. E quem pensa, ah, então beberia a pinga pura, ledo engano, eu também pensaria, mas a dose de cana não sai por menos de R$3,50. Um roubo. O chope chega a R$4 e a cerveja grande R$5, tá punk manter o alcoolismo por essas bandas.
¿ Ainda bem que aqui não tenho carro, vá lá que é possível encontrar postos em que o litro da gasosa sai bem mais em conta que no Recife, por R$2,20 até, mas ninguém merece pagar R$10 de estacionamento a cada esquina.
¿ Foda é as pessoas acharem supernormal o aluguel de um ap de 1 dormitório num bairro meia-boca custar 900 paus. Desse jeito vou deixar de ser sem teto nem tão cedo.




Segunda-feira, Abril 24, 2006

Yeah Yeah Yeah Song - Flaming Lips


O embarque

Há alguns anos eu venho carregando a estranha sensação que enquanto eu não tiver forças suficientes para me desapegar do passado, do que eu fui até então, minha vida não vai começar. Isso acabou tomando proporções geográficas. Grita aqui dentro uma convicção que enquanto eu estiver no Recife, as raízes que me prendem não deixarão minha vida se renovar.

Passagem marcada, malas despachadas, quase todas as despedidas feitas, enfim, faltam poucos dias para eu lavrar pra a Paulicéia Desvairada, em missão magaiver de ir tentar a vida na terra das oportunidades. Enquanto isso a maioria das pessoas se questiona se isso vai dar certo ou não, se eu vou arranjar um trampo, se eu vou me dar bem, se eu vou ser um sucesso e principalmente se eu não tenho medo que dê tudo errado.

Obviamente eu tenho sim medo de passar fome e frio, mas não seria o fato dessas coisas (claro que obviamente eu desejo) não se concretizarem que eu consideraria um fracasso. A simples experiência de partir já vejo como um sucesso, um ganho de crescimento, um ato de projetar-se ao risco que há muito eu imaginava.

Fracasso neste momento para mim seria continuar com uma vida medíocre, acomodada com pouca grana, um ou outro trabalho por fora com coisas que eu não ia gostar, fazer um concurso público aos 25 anos, começar a pensar em estabilidade, fincar raízes e me acomodar para todo sempre, sem nunca poder abrir a boca pra pelo dizer que eu fui viver em outro lugar e respirei de outros ares, mudei o percurso.

E esta minha partida não é como uma fuga dos problemas que não quero enfrentar, é apenas a simples certeza do não pertencimento ao lugar onde se está e à vida que leva. Ninguém mais do que eu sabe que não enfrentar o problema não o elimina, e não estou fugindo de nada que possa ter deixado de enfrentar.

Vivi um a um todos os meus maiores medos, até que eu me sentisse pronta a andar com as próprias pernas. E eu não to indo pra fugir da solidão, minha constante companheira, mas para conviver com ela em outras situações ainda não experimentadas.

E a vida sempre nos testa pra verificar até quando estamos convictos do que queremos. Sem dúvida não é coincidência que justo nas minhas últimas semanas, quando tudo é clima de fim, eu tenha conhecido pessoas que eu não encontrei durante toda a vida que passei aqui e que neste breve período me foi possível constatar que se tratam de indivíduos interessantíssimos.

E é irônico que eu tenha passado anos certa de que nessa cidade não havia ninguém interessante, e quando estou na porta de embarque, me vejo conhecendo pelo menos três caras com os quais eu não rejeitaria a idéia de passar mais tempo e conhecê-los melhor, já que o pouco que conheço é bem divertido.

Acho que isso simboliza muita coisa. Representa que o problema estava comigo, que nesse tempo todo, acho que boicotei todas as possibilidades de me abrir a conviver com pessoas legais, como uma imposição inconsciente para não me permitir me apegar aonde estou. E quando me senti livre para viver tudo (eu digo tudo), porque tudo já não importa, agora que me vou, as coisas aconteceram de maneira um pouco distinta. E isso me leva a crer que uma nova vida que surge, não por um novo lugar, mas por uma nova atitude.

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A sala de espera do vôo


Hoje eu estou in love pelo menos até amanhã.

Ele vindo e eu indo. Minha cidade agora dele, a dele agora é minha. E as músicas são nossas, muitas mesmo. E sós fomos e sós não voltamos. E a única lamentação que ficou desse encontro, é que ele deveria ter acontecido antes e o destino não quis.

E comentava eu sobre uma amiga fofa: sabe aquelas pessoas que você encontra um única vez e rola uma energia tão forte que se sente que já adora essa pessoa e sente como se conhecesse ela desde sempre? Ele então respondeu: sei, como a gente!

Existe comentário mais fofo que esse? Ussi mainha, eu quero pra mim! Por isso eu acho que paulistas são os caras mais bacanas, que melhor sabem tratar uma mulher. Tenho a ligeira impressão que tenho uma quedinha por indies.

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O destino, o mundo das distâncias

Uma amiga, preocupada com meus affairs virtuais, me mandou essa semana um email que contava a história de uma menina, que conheceu um cara na net e mesmo marcando encontro num público, o cara discretamente apontou uma arma pra ela, conseguiu levá-la para outro lugar sob ameaça e com mais dois amigos estuprá-la e espancá-la cruelmente por horas a fio.

Eu compreendo bem a preocupação dela, também fiquei chocada e transtornada, principalmente depois de ser me deixado iludir pelo holograma e perceber que pode não ser tão fácil reconhecer um escroto atuando na net. Mas repensei que esse não é um perigo exclusivo do mundo cibernético. Estabelecer relações interpessoais é um risco em si, e conhecer pessoas legais e pessoas más é mais uma questão de sorte e azar, que de ambiente.

Nesta semana tive uns quatro sinais de que a net ainda me trouxe mais bons ventos que maus. São lembranças incontestáveis. Primeiro exemplo, Jorge Tadeu, the best sex session ever, foi uma descoberta cibernética mais que surpreendente, e apesar do estilo cafa moderno e descolado, é uma pessoa super do bem, e interessantíssimo, ótimo pra tomar um café e conversar a noite toda sobre cinema, por exemplo. E então não é que numa incrível e doce coincidência que ele vai estar em sampa na mesma época que eu (sim, Jorge Tadeu é um sucesso internacional, mora na Itália e visita a terrinha só bem raramente).

O amor mais bissexto da minha vida, também num encontro metafísico virtual, surgiu na vida pela net e vai justamente me encontrar capital paulista na próxima semana, pra mais um dos nossos fatídicos encontros lindos de morrer que parece filme de Hollywood. Como se já lá no Morumbi, não esperasse meu amigo alemão, que é um dos mais queridos ever e que também esbarrei por aqui e foi amor de primeira.

E não bastasse que toda minha boa sorte internética converge para São Paulo, meu doce amigo francês me ligou há poucos, direto de parigi, dizendo que vai me encontrar em Sampa em agosto, pra gente relembrar os bons tempos de cachaça aqui pelo Recife, e sabem como eu conheci essa criatura? Por um simples scrap no orkut.

É claro que eu já não passaria madrugadas a dentro num mirc da vida, falando com gente que eu não conheço. Não tenho idade pra essas coisas mais, mas tudo que a internet me trouxe me faz feliz até hoje. E a permanência desses contatos por tantos anos, e esse momento que se inicia de reencontros me mostram que minha web é como o meu mundo, tenho mais boas recordações que exemplos traumáticos.


Segunda-feira, Abril 03, 2006

Mentiras - Adriana Calcanhoto

Enquanto ficava com o uruguapo numa festa, e trocentas meninas flertavam com ele, obviamente porque ele é guapo, ele estranhou minha postura desencanada, de não me aperrear com a concorrência. Depois que ele se foi, sempre ficava meio cismado, querendo saber da minha vida, e de meus amores, e ficava ressabiado que mesmo tendo ciência que tem um amor em cada aeroporto, não passava meu tempo em pergunta-lhe o que havia aprontado.

Afeito a perguntas incisivas, me perguntou então se eu não era ciumenta. Respondi-lhe então que eu era insegura e não ciumenta, e que havia para mim diferença cruciais entre ambas as coisas. Expliquei que a pessoa ciumenta sofre de um temor premente de ser traído, trocado, subjugado pela humilhação, o inimigo da relação que vislumbra é o outro, o rival, o mal-feitor que pode lhe roubar um trunfo. A base da preocupação do ciumento é a infidelidade. O que claro, não exime-se nesse conceito a estrutura de insegurança natural do ciumento.

Assim como o que venho a chamar de inseguro não está isento de suas porções de ciúme, mas a essência de sua aflição não se fundamentaria na infidelidade, mas na indiferença. O inseguro tem medo de não ser querido, importante, fundamental, lembrado e amado. Aflige-lhe muito mais pensar que não o admiram o suficiente que imaginar escapadas da pessoa querida. O inseguro é capaz de nem se abalar com a suposta traição, desde que perceba que construiu algo especial, que significou algo pro outro, que vai além da simples conquista.

Então eu sou assim, inseguríssima. Eu sempre espero importar para as pessoas que me importam, ser lembradas pelas pessoas que admiram, que eles amem a minha companhia, que sintam me falta. Meus amigos que o digam, as vezes eu até os sufoco com isso. Esse é um dos meus problemas mais complexos, por que é difícil perceber as nuances.

Minha insegurança refinada se destrincha entre a prepotência e arrogância, o gênero nem-te-li-go ou altivez e independência rebelde em tentar convencer que eu não me importo com os outros pensam, e a profunda autocomiseração (que poucos conhecem), de me auto depreciar, me submeter a situação humilhantes absurdas em busca de companhia. [Adendo: eu realmente não me importo com o que os ¿outros¿ pensem, até que ¿outros¿ se tornem ¿Aqueles¿ com os quais me preocupo].

Enfim, por esse caráter de baixa estima, agravado por minha ansiedade crônica, minha over intensidade, vinha volúpia e volatilidade supremas, eu sempre duvido do meu poder de cativar as pessoas e isso me angustia sobremaneira. Não é novidade que sou a pessoa mais volúvel e de sentimentos fugazes que tenho conhecimento. Mais o que eles têm de voláteis, eles têm de intensos.

E toda vez que conheço a-melhor-criatura-dos-últimos-tempos-da-última-semana, até que se passe a fatídica semana em seu costumaz encantamento, eu me torno um ser miserável, sofrendo horrores, imaginando ¿será que a bola da vez está tão intensamente envolvido como eu?¿. Partindo do princípio que as pessoas pelas quais me interessam são normais, a resposta óbvia é que não. Ninguém se impressiona tão louca e facilmente quanto eu. Eu posso desejar infinitamente alguém só de olhar, como o planta.

E aí, quando meu objeto de desejo não surta na minha loucura, e obviamente o tempo de maturação das coisas dos outros (ou melhor, daqueles) é bem diferente e mais paulatino, em tempo recordo eu entro em depressão, quero cortar os pulsos e dias depois de negativa de reciprocidade eu retomo ao lugar onde sempre deveria estar, o de considerar o que deveria ter ponderado: são apenas pessoas legais por quem eu tenho um carinho doce, não muito profundo.

No meu ritmo louco e na paranóia debilitante, me parece realmente impossível acreditar que tenha sido capaz de despertar algo de doce e sublime em quer que seja, já que eu introjeto como certo que as pessoas nem se quer memorizaram meu nome somente porque eles não são capazes de se jogar de um precipício por minha causa.

E então me causa um certo espanto quando depois de passado meu surto, e quando a-pessoa-mais-interessante-da-semana-da-passada insinua-se a voltar ao topo da parada (lógico que de maneira inconsciente, já que é impossível perceber em tão pouco tempo que entraram e saíram dela com tamanha desfaçatez), eu receba sinais que de alguma maneira eu ¿toquei¿ as pessoas internamente, e fui mais que sexo, mais que carne, mais que uma, mais que número, mais que quantidade.

Lógico que ninguém ainda tatuou a letra G. na bunda por causa disso, não exageremos na expressão desse retorno, mas algumas vezes aconteceu esse momento de busca de reencontro, e sempre, inevitavelmente, é bem depois (esse bem depois no meu cronômetro, pode significar apenas um dia) do meu momento de querer vivê-lo, e assim, nesse descompasso de interesses, se construíram grandes amizades.

É muito curioso que meu sentimento explosivo se esvaia, e meus ex-queridos tenham cevado o que alimentaram a meu respeito. E aí de repente me surge aqueles carinhas que nem se deram conta que me deixaram na sarjeta com gestos de doçura e olhos de cãozinho pidão, a implorar que eu ainda os queira.

Muitas vezes já não acontece, a fila anda e eles despencaram na tabela, até por que passam a concorrer deslealmente com a figurinha do topo do momento (que sempre tem). Em outras eu até me permito, dependendo do nível de tesão que nutria pela criatura, mas sempre tem um sabor completamente diferente, e acho que parecido com o que eles sentem, o de que é legal, é divertido, eu levo numa boa, mas não me atinge.

E quando tiozinho da sukita delira que me quer por que quer, ou uruguapo quer desembarcar por aqui só pra passar um fim de semana comigo, le pivas me busca no meio da madrugada sôfrego por atenção e confessa que há muito precisava me reencontrar e tá todo bonitinho me ligando quase todo dia, ou planta me envia um texto e conta que pensar em coisas legais como arte, música, cinema e bom papo é lembrar de mim (sim, esse é o melhor elogio que eu já quis ouvir), e até mesmo the last one me procurar depois de uns sinais de frieza clássica do day after, tudo isso me leva a refletir que:
1) Ilusão é o quesito número 1 do meu interesse, perceber que as pessoas são normais me frustram;
2) Minha insegurança se fortalece mais pela minha impaciência e pela minha incapacidade de fazer boas escolhas entre a fauna masculina, que na minha escassez de potenciais de despertar carinho
3) Eu não sei o que os homens querem, jamais, tanto para o bem, quanto para o mal, porque minhas nóias me impedem de fazer uma análise razoavelmente verossímel, mas sejam lá o que eles queiram, se não for na hora que eu quero, as coisas jamais acontecerão da forma que eles imaginavam que eu reagiria (sim, porque eles não me conhecem nem fazem idéia do que se passa aqui dentro e como isso tudo muda subitamente)

Será que existe alguém suficientemente louco quanto eu? Será que eu vou ser mais paciente e com um processamento das coisas mais naturais e normais? Será que eu sou uma cumbuca? Enfim, os cães ladram, mas a caravana não pára, pelo menos, não a minha.


Segunda-feira, Março 27, 2006

Armadura - Otto

Eu me rendo ao cinema oriental. É em verdade que tenho certa dificuldade de apriori me adaptar ao ritmo, à sonoridade dos idiomas, às feições, aos diálogos com metáforas à natureza que correm sempre o risco de cair no pieguismo (e às vezes caem), enfim, é uma estética cinematográfica que eu não definiria como meu estilo. Nem por isso é uma incongruência afirmar que apesar de aparentar ter um coração de pedra, eu sou sensível a histórias de amor, o que se torna ainda mais fácil se são histórias bem contadas, aqui, ou na china.

E é exatamente da China que vêm os filmes Amor à Flor da Pele e 2046, o último dado como continuação do primeiro, do abençoado Wong Kar Wai. Em Cingapura, nos anos sessenta, Tony Leung, o mesmo ator de Amor à Flor da Pele, revive o personagem de um escritor que ama uma mulher que o abandona. Magoado, renuncia aos sentimentos e se transforma num colecionador de mulheres. Uma delas se apaixona por ele, desesperadamente.

Assistir a ambos os filmes e à trajetória do personagem, em um e outro, me levaram a refletir tanto sobre a minha vida, que até me surgiu a idéia de depois, inaugurar um blog, exclusivamente sobre cinema, mas não abordagem comum, de leitura crítica, mas sobre em que certos filmes acabam impactando em minha vida.

Voltando aos filmes de Wong Kar Wai, saí meio chapada da sessão de 2046. Borbulhava em minha mente a idéia que quanto mais profunda uma relação e quão mais mal resolvida ela acabe, é impossível sair incólume, suficientemente zerado, para as próximas relações. Os amores do futuro estão condenados às conseqüências da história afetiva de seus pares.

Conquistar o amor do outro não passa jamais pelo mérito de nosso esforço, mas pela sorte de um encontro de almas em momentos afins. De nada adianta ser gentil, sexy, interessante, inteligente, bem humorada, espirituosa, divertida, dar espaço, dar liberdade, até o cabimento. Se o outro não está no momento de receber esse, não desamarrou as correntes que lhe prendem ao seu passado, sorry honey, você não vai passar de uma doce distração.

E é muita paradoxal minha identificação com o filme. Ora me vejo como o jornalista solitário, boêmio, bon vivant, safado, ordinário (como só Nelson Rodrigues o definiria), colecionador de aventuras, mas profundo apaixonado pela alma do sexo oposto, e que no fundo, busca em cada busto sob o qual ressona as pulsações daquela pessoa que não pode ter. Reconheci ali tantas das minhas dificuldades de entrega e me pareceu meu clarividente porque a uma mulher desejável como eu lhe acontece passar anos sem um compromisso.

Em outros momentos, me enxergava na moça inocente e carente, que mesmo entrando num jogo pesado de sedução com o rapaz, usando todas as suas técnicas de artilharia, não agüentou o tranco da paixão, e cedeu ao amor, mesmo tendo claro desde o princípio que ele não estava disponível para nada além daquele jogo. É tão comum e pueril pensar que conhecer os caminhos que levam a provocar desejo em um homem são os mesmos que levam até seu coração. Há um abismo entre eles. A gente se joga achando que vai saltar do outro lado como em Matrix, e sempre se esborracha como o Coyote atrás do Papa-léguas.

Eu, e provavelmente qualquer pessoa que já tenha amado, somos em essência os dois personagens, em alguns momentos da vida, com um mais evidente que o outro. Mas assisto nesse momento a uma luta de ambos disputando o título de meu ego.

E só para manter o empate técnico pensei em três homens maravilhosos que passaram em minha vida (meu melhor amigo, meu amigo zenzinho, e meu querido carioca) que eu infelizmente não consegui me apaixonar no momento dos nossos encontros, e, em contra-partida, três caras que eu investiria minha alma, mas não ofereceram nenhuma condição de correspondência (meu nerd, tiozinho da sukita e homem-planta).

Vivo o misto de não conseguir me envolver mas de desejar ardentemente conquistar um amor. Doido isso, não? Wong Kar Wai por favor filme logo a continuação de 2046 em que o escritor chegue na fase em que pode amar outra vez, porque lobotomia ainda não é uma coisa disponível no mercado!


Domingo, Março 19, 2006

Pagu - Maria Rita

Já constatei que há que se pagar alguns preços pela autonomia feminina. O mais alto deles é a maneira diferenciada como as pessoas a percebem. É um machismo refinado. Atrevo-me a dizer que a maioria dos homens que dizem gostar de mulher independente no fundo não a admiram, apenas percebem ali uma maneira diversificada de buscar a mulher-objeto, aquela que aprendem a perseguir desde a pré-adolescência na capa da Playboy.

E a gente bem se ilude pensando que eles buscam um domínio cultural apurado, uma maturidade emocional consolidada, uma serenidade profissional e uma auto-estima equilibrada, enfim uma fêmea tipo A. Homens com mulheres em pé de igualdade se sentem ameaçados porque sabem que elas não dependem deles para nada e podem deixá-los a qualquer momento. Na cabeça deles, querer e precisar são sinônimos. Precisam se sentir necessários e imprescindíveis para se sentirem amados. Enfim, eles reclamam, mas no fundo preferem relacionar-se com as imaturas, carentes, dependentes, ciumentas e submissas, por serem previsíveis e mantê-los no controle.

E o que eles buscam então com as independentes damas? A praticidade. É o útil e o agradável, não necessariamente nesta ordem. Para eles é interessante o jogo da conquista com essa espécime feminina. Las "indies" são seguras e objetivas com o querem, não fazem doce se estão afim de um cara, não contabilizam, por exemplo, quantos encontros são socialmente aceitos para que possam abrir as penas, geralmente são dinâmicas e despojadas na cama por não terem tantas travas sexuais e encararem sexo com naturalidade.

E o que é melhor (para eles), no fim das contas, além de uma boa conversa, as mulheres independentes oferecem uma segurança de tranqüilidade, não são desesperadas, não vão pegar no pé, não vão fazer drama da próxima vez que os encontrarem. Encaram tudo com leveza e percebem com discrição a sutileza dos códigos masculinos para dizer coisas como:
1)"eu quero te comer", 2)"eu quero te comer, mas não quero mais nada além disso" ou 3)"eu não quero mais te comer". Pasmem, há muitas mulheres que não persebem que é isso que eles estão tentando comunicar quando vêm com aquele papo de 1)ligar depois de tempos desaparecidos de madrugada dizendo que está morrendo de saudades; 2)quando os encontros se tornam freqüentes dizer que o problema é com ele, ele te adora, mas não está pronto para se relacionar nesse momento; 3) tomar chá do desaparecimento, andar muito sem tempo ou tratar como coleguinha.

A questão é que, na mente masculina, mulheres de personalidade forte - que são capazes até de discernir amizade, sexo e amor, autônomas e auto-suficientes - são tão práticas, mas tão práticas... que chegam a confundir-se com seres que não têm sentimentos. Para eles, mulheres bem resolvidas não se envolvem nunca, isso seria um sinal de fraqueza. Há ainda aqueles que comentem brutalidades com o sentimento feminino como se ali não batesse coração algum.

Venho a advertir que as independentes também amam, sofrem, acreditam em conversa mole, aguardam telefonemas, ficam com mãos geladas e friozinhos na barriga, que um sorriso nos cativa e uma patada nos decepciona. Quem foi que inventou que mulher que pensa não sente e que mulher quente não é confiável?

Essa semana tive umas comprovações dessa linha de pensamento masculina, expressas por três espécimes diferente, o que já traz uma amostragem razoável para concluir que os homens não vêem as "indies" como seres de carne e osso - ou talvez o problema seja justamente de que vêem exclusivamente isso.

Buenas, primeiro surge um ex-ficante-trepante que nunca teve um pingo de consideração à minha pessoa, nunca me deu nem um telefonema pra saber se tava viva, já ficou com outra na minha frente. Apois a coisa morgou de uma maneira que já fiquei até com um amigo dele depois disso. Num é que dia desses me encontrou por aí e se tocou de uma realidade perceptível para a maioria das pessoas: eu estou um pouco mais atraente que antes. E daí? Por causa disso a peça rara se acha no direito de achar que porque dei uma vez, vou dar sempre? Como se dispor dos seus lindos olhos de mel fosse suficiente pra ele crer que me chamar pra ir pra casa dele no meio da noite como rapariga disque-sexo fosse uma proposta pra se levar em consideração... Alguém esqueceu de ensinar esse menino os princípios da leis físicas que levam o ponteiro do relógio a passar, a fila a andar... Alow, semancol ainda tá na moda.

Segunda experiência. O cara que sabe, ouviu até da minha própria boca que você não quero ser amiguinha dele, que o momento não é propício nem adequado, já que ainda existe, mesmo que não correspondida, uma paixão mal resolvida. Alguém me explique o que leva esse mesmo cara a um dia dizer que vai passar na minha casa para tomar café e no outro dia me fazer de google cultural do Recife, buscando um programa onde levar a namorada dele? É namorada. Surpresos? Eu também fiquei de saber que é nesse pé que as coisas estão. Acaso teria eu sangue de barata? De certo, baseado no meu gosto, só falta da próxima me perguntar os melhores motéis da cidade para levar a digníssima. Onde isso vai parar? Nas dicas sobre presentes, lingeries e até melhores posições kama-sutrícas? Faz favor né? Vamos brincar de ter ao menos consideração pelo o que os outros sentem, já que não se pode oferecer nenhum sentimento mais nobre em contrapartida. Consideração já seria um bom começo. Se é amigo que diz ser, devia se preocupar com o que sinto, não?

E por fim, a vida me traz umas surpresas assustadoras. Conto a um amigo que me vejo na cena: Planta quando quer, octópodo quando lhe parece conveniente, 34 anos, branco, olhos claros, paranaense, residente alone no Recife por ser apaixonado pelo nordeste; colchão no chão, nada de cama; no fundo não tem ninguém por apego uma história do passado (presente) e por uma certa safadeza inerente; encontro mágico e perfeito, mas que não vai levar a nada. Esse filme eu já conheço né? Vale à pena ver de novo? Por que entre tantos escolhi logo esse DVD repetido em toda a prateleira? Mera coincidência?

Confesso pro tal amigo todas essas angústias, e o que é meu amigo me responde: "negha, you were born to make guys on their thirties happy for one or more nights. it's just your fate, your destiny. Girls like you are very important for world's harmony, peace and beauty. Você levanta o ego e outras coisas também, e não pede nada em troca. Você é a modernidade em pessoa, a mulher do século XXI, independente, desinteressada, franca atiradora". E isso tudo em tom de quem está fazendo o mais fino elogio à minha personalidade.

É exatamente nisso que eles acreditam, que a mulher independente veio ao mundo para fazer os homens felizes... NA CAMA e não pedir nada em troca. E sem dúvida eu devo achar que é um elogio e que eu ache natural não ter também eu o direito de ser feliz e por bem mais tempo que uma noite? E são esses os caras que se dizem moderninhos e totalmente contrários ao machismo. É o mesmo tipo de gente que diz que não é racista, mas para elogiar um negro usa termos como "ele é preto, mas tem alma branca". Fake modern people, Fodam-se.

"Mexo, remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira
Sabe o que é ser carvão
Eu sou pau pra toda obra
Deus dá asas à minha cobra
Minha força não é bruta
Não sou freira nem sou puta

Porque nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem"


Domingo, Março 12, 2006

Roda viva - Chico Buarque

Uma noite adolescente, despretensiosa e inconseqüente. Chegar em casa com aquele gostinho que aprontou é realmente divertido. Voltar no tempo, passar a noite me jogando na pista do velho bar na rua da guia onde tantas noites foi celebrada a Non Stop, adentrar aquelas portas que me introduziram ao mundinho alternativo. Era possível até rever a minha cara boquiaberta quando ali testemunhei pela primeira vez um beijo gay e naqueles andares superiores, que hoje nem há mais acesso, dei memoráveis primeiros sarrinhos inocentes.

Então eu estava neste clima, me remeti aos tempos que felicidades é dar gritinhos ao ouvir os primeiros acordes de uma música de smiths ou cure. Tava precisando disso, há tempo eu havia esquecido meu espírito jovem guardado em casa, muito séria, muito adulta, muito madura, e em contrapartida muito amarga. Divertir-se com coisas simples é um talento que não quero cair na besteira de desperdiçar.

Por estar munida da minha jovialidade, inspirada pelas recordações, acho que minhas energias clarificavam que eu estava bem. E quando se está bem, é tiro e queda, o sex appeal aumenta consideravelmente. E não deu pra mais ninguém, eu era a própria rainha da pista, segura de si, sádica e cruela com os homens. Provocação era o meu conceito da noite. E sabe aqueles dias que você está com mel? Sem produção nenhuma, calça jeans, camiseta básica, sandália rasteira, nada de bijuterias, acessórios, maquiagem ou perfume, apenas o ar de tô-nem-aí como maior atrativo.

Bati o olho num cara. Sim, porque eu tenho esse viço de caçadora. Eu entro num ambiente, seleciono a presa, e me fixo ali, não existe mais ninguém, é aquele que eu quero e pronto e se transforma no objetivo da noite. Quase nunca funciona, geralmente volto pra casa frustrada, o cara nem me dá corda, fica com outra, etc. Mas é sempre assim, quero aquele, acabousse! e nada vai me demover da idéia até que o dia amanheça, ao menos.

Mas como a minha sina é me atrair por homem-planta ou canalha moderno, o cara apesar de estar completamente me correspondendo não fazia nada. Em outras épocas eu acharia isso uma graça, timidez aliada à espera costumavam ser o afrodisíaco mais eficaz à minha pessoa, mas depois dos últimos acontecimentos ando cansada de sonsismo. Estou num momento Gente que Faz, e quem não faz a fila anda.
Dito e feito. O devagarzinho ficou com cara de paisagem e ainda meio enrolado com outra menina. Era até visível que ele estava arrependido de estar ali e não poder agir um pouco mais. Problema dele. Eu estava livre, leve, solta e serelepe e ainda muito interessada em beijar na boca que faz bem.

Como em todo bom filme, entra então no enredo um personagem inesperado pra causar reviravolta na história dos protagonistas. Eu tava tão fixada no devagarzinho que nem vi um coisinha fofa de cachinhos negros e barba por fazer me dando corda. Uma graça, ainda era nerdezinho, estudante de matemática e de sorriso lindo, bem meu estilo... me joguei. O outro ficou então com aquela cara de que tinha consciência que time que não faz leva e que ele sabia que mereceu levar.

Não estou dizendo que fiquei com outro naquela atitude adola de provocar ciúme, mas que eu desencanei numa boa. Mas mesmo sem a intenção, o fato é que acabou revertendo a meu favor. Devagarzinho se tocou e, depois que o personagem que fez uma pontinha no episódio saiu de cena, partiu pra ação. Chegou afirmativo e pegou no meu braço, disse que estava indo embora, que era uma pena, mas que não queria perder a oportunidade de me conhecer. Minha vontade foi dizer: "realmente, muito manezildo da sua parte só fazer alguma coisa agora", mas detive-me apenas a ceder o número do telefone com alguma simpatia, mas cá-com-meus-botõesmente com total descrença que ele ligaria.

A noite já estava ganha, né? Mas quem dispensa goleada, mesmo que valha os mesmos três pontos na tabela. O sabor não tem preço. Estiquei a balada faceiramente até o velho garagem. E pra não perder o hábito, lancei um opticolulético (para quem não sabe, um olhar paquerativo) num ruivinho tímido e magrela que eu sempre achei assaz interessante. Tão, mas tão tímido que fica charmoso na sua fisionomia naturalmente discreta.

Era realmente doce observar sua luta interna para vencer a timidez. Ele vinha, até olhava nos olhos, chegava bem junto, não dizia nada, se injuriava com a própria incapacidade de se socializar e ia embora. Uma três vezes durante o restinho de madrugada que a manhã já tomava conta ele repetiu o gesto. Eu já estava tão sensibilizada com a causa dele que ia dar uma força, ia eu mesma falar com ele e ajudar no ponta-pé inicial.

Mas quem bobeia perde a bola né? Chegou um atacante mais craque, se adiantou, e me levou na conversa (mole) antes do ruivinho. Driblava bem o gaúcho que surgiu subitamente. Irresistíveis olhos azuis, cachinhos dourados, barba crescida, visual maltrapilho intencional, do jeito que eu gosto, e uma conversa de malandro que poderia sem titubear levar o título de carioca. E aí joguei o segundo tempo de beijo na boca.

Não foi a primeira vez que fiquei com dois caras na mesma noite, nem romancear por uma noite com um menino estranho também não tinha ineditismo, mas depois de bons longos, fazê-lo com a desfaçatez que só a juventude (em seu sentido radical) permite, fez dessa noite realmente memorável. E eu já nem me lembrava como era ter de fica na rua até amanhecer para esperar o buzão e chegar em casa sob os olhares da vizinhança lhe condenando por estar com aquela cara de resto de feira. Oh que diliça!

É o fim de uma era. Homens-planta estão fora da minha moda, definitivamente. A vida dinâmica da complexa conjuntura moderna (tô tucanando) exige: ou se mexe ou me mexo eu, ora bolas. E num é que nesse meio tempo enquanto escrevia esse post devagarzinho já me ligou? Acho que o mal sempre esteve na delonga da espera. O ministério da puteza adverte, ficar disponível demais faz mal à saúde.

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